Roça Língua em São Tomé

O que quer, o que pode esta língua? Roça Língua em S.Tomé por Marta Lança em Buala

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

Se a lusofonia é uma tão polémica utopia, a 1ª edição do Roça Língua, residência de escrita criativa, parece dar-lhe alguma consistência nas áreas que pode ser mais interessante: a cultura e a História. Encontrado o lugar certo para implantar uma residência de escrita e partilha, a ilha de S.Tomé, através da Roça Mundo, recebeu estas gentes ligadas à palavra que viveram numa espécie de música de fundo permanente de estórias e risos. Vieram de vários países com muita vontade de conhecer S.Tomé. Quem ainda não se conhecia facilmente se juntou em convívio e cumplicidade. Os livros uns dos outros foram saindo da timidez das malas para contrabandear-se, numa curiosidade pela obra alheia. As fotografias cristalizam grupos que se vão reconfigurando.

Este encontro, que coincidiu com a semana de inauguração da Bienal Internacional de Artes, trouxe escritores, cantores e actores de países falantes do português a S. Tomé e Príncipe, o contexto criativo a partir do qual se irá produzir um conto, para um livro intitulado Roça Língua. Com tantas formas de expressar essa língua que partilhamos, adjuvante para as tais cumplicidades, este acontecimento literário tem tudo para crescer e melhorar-se de ano para ano.

O programa é intenso, a informação é imensa e a generosidade de todos também. A comitiva Roça Língua desmultiplica-se em mesas redondas, apresentação de livros, oficinas com jovens e passeios. Foram muito impactantes as visitas às roças Água Izé, Agostinho Neto e S. João dos Angolares, onde pernoitámos no cansaço de uma maratona de cantorias, correndo reportórios de música popular santomense, caboverdiana, portuguesa, brasileira e angolana, bem acompanhados pela viola a afinação do cantor João Afonso e músico José Afonso. Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção.

As estruturas das roças de cacau, cuja difícil situação actual espelha estórias de vidas duras: arrancadas das suas terras há tempo demais para que a “saudade se tenha transformado em pedra” (frase arremessada por uma revoltada senhora caboverdiana), as pessoas que as habitam têm muita memória por lembrar e esquecer. O desenrolar da História distribui responsabilidades pelos vários países implicados mas no final “a culpa é de todos em geral e de ninguém em particular”. Momentos de grande emoção, quando o crioulo de Celina Pereira provoca o reconhecimento imediato nos idosos e meninos de origem caboverdiana e quando os portugueses percebem a dimensão das consequências de um sonho imperialista decadente. As feridas da História de todos vão-se desfiando nas estradas que contornam a ilha, à medida que se complexifica a percepção de que S. Tomé e Príncipe é tão sintomático dessa amálgama cultural, politica e de vidas.

A cada dia a certeza de que este entreposto cultural é indubitavelmente o melhor lugar para a implantação do evento literário Roça Língua, na partilha do universo reflexivo da escrita em relação com o lugar onde se dá o encontro. Ao escolher os convidados, eu e o escritor angolano José Eduardo Agualusa pretendemos trazer a diversidade, uns nomes mais conhecidos que outros, várias gerações e maneiras de fazer a palavra acontecer.  Também houve a preocupação de cumprir-se uma componente pedagógica, de partilha e testemunhos. As oficinas e conversas com escritores têm sido estimulantes para que jovens, crianças e jornalistas santomenses participem no evento de forma produtiva e crítica. As sessões no Centro Cultural Brasileiro nem sempre têm tido muita participação dos santomenses, o que revela que há todo um trabalho a fazer pela criação de públicos e leitores, nas escolas e outras instituições. E contamos já com o precioso contributo de Isaura Carvalho e João Carlos Silva, com a sua Cacau e Bienal, que tem dinamizado imensamente a cultura em S.Tomé.

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa

Nas suas particularidades e múltiplas identidades, marcadas pela colonização, actuais modelos económicos, despojos do socialismo, a construção da Nação e a perda das Utopias, as difíceis e ricas questões étnicas, os conflitos raciais, as tradições e cultura oral, a vida das ruas, os sonhos e os amores, estas literaturas de língua portuguesa têm muito de valor documental para conhecer as entrelinhas da História. Ana Paula Tavares, Mia Couto, José Craveirinha, Guimarães Rosa, Arlindo Barbeitos, Ondjaki, Germano de Almeida, Francisco José Tenreiro, Ruy Duarte de Carvalho, Pepetela, Machado, Luandino, Manuel Rui, Agualusa e João Vário são alguns dos escritores que têm contribuído para fazê-las sair do seu estatuto algo periférico, inscrevendo os seus textos numa certa universalidade que subverte as cosmovisões estereotipadas que ainda existem. Porém, com algumas excepções, os escritores movem-se, falam, escrevem e são lidos num circuito ainda muito específico, fora do qual, ou seja, para lá da lusofonia, nem sempre conseguem encontrar o seu lugar. No entanto, oportunidades como esta – de partilha profunda na mesma língua – fomentam uma emancipação. É importante conhecerem o que contam uns e outros, os vários métodos de trabalho, as obsessões do processo criativo, as linhas de força de uns e outros. Do moçambicano Ba Ka Khosa às santomenses Conceição Lima e Olinda Beja, passando pelos jovens escritores brasileiros Tatiana Levy e Daniel Galera, a portuguesa Cláudia Clemente, o guineense Waldir Araújo e o caboverdiano Filinto Elísio, os frequentadores do 1º Roça Língua lembram que as nacionalidades podem ficar bem no puzzle que enforma esta língua mas as questões que levantam estão muito para lá disso. Aqui podemos contactar com as mais diversas, tensas, bem humoradas, eloquentes questões das literaturas e culturas dos países de língua portuguesa, em que os equívocos das maneiras de dizer e dos contextos de cada um podem vir a ser desafios para um entendimento maior.

E quero me dedicar a criar confusões de prosódia

Versos da letra Língua de Caetano Veloso

por Marta Lança

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