Capela de São Gens na Graça e o Lugar de Lisboa

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O Caso da Igreja da Graça em Lisboa: modos de olhar para o património

Para tornar clara a abordagem da complexidade que procuramos apresentar, partimos dum caso prático. Trata-se dum caso frequentemente citado, localizado numa zona central de Lisboa o Bairro da Graça. A sua proximidade às áreas patrimoniais do centro histórico, tais como o Castelo e o Bairro de Alfama, a Baixa Pombalina, o Bairro Alto e mais recentemente a Mouraria, não motivaram contudo o entusiasmo patrimonial destes outros espaços. É um espaço que, por assim dizer se encontra num estado transitivo, entre as intervenções patrimoniais pré-globalização e da era da globalização.

Para iniciar a apresentação dos trabalhos e criar uma primeira aproximação com a complexidade, apresentamos uma litografia que se intitula “colégio de santo Agostinho”.

Trata-se dum trabalho que se encontra depositado na Biblioteca Nacional de Lisboa, disponível no arquivo digital3 da autoria do Mestre Luiz Pereira Leite, que terá sido publicada em 1850.

Mestre Luiz Pereira Leite viveu em Lisboa entre 1828 e 1893, no popular Bairro de Santa Catarina, onde dispunha duma oficina de litografia no Largo do Poço Novo. O mestre é também meu trisavô pela linha paterna, o que releva nestas questões o problema das relações biográficas que mais para afrente detalharemos. Se a autoria chamou a minha atenção, consolidando uma informação que corria por via das histórias contadas pelo meu pai, sobre a veia artesã da família, a situação representada, que agora apresentamos é o que queremos agora relevar como ponto de partida para a análise da poética do espaço.

Como podemos observar, na gravura, sob o cenário da ruína duma igreja, representa-se uma cena popular, numa situação de que a classificação bibliográfica classifica como “Romaria”4. As personagens, coerentes com o tempo nos trajes observa-se uma personagem feminina em comunicação para um outro personagem sentado sobre um paralelepípedo caído. Por detrás deste, no que pode ser um auto-retrato do autor, um jovem desenha a cena numa prancha. A análise dos detalhes deste tipo de representações são relevantes para cartografar um tempo e os seus costumes e personagens. Ainda que por vezes os cenários representados não sejam rigorosos, pois nem sempre a intensão terá sido retratar o lugar, mas sim ilustrar uma ideia, este tipo de documento pode ser um instrumento auxiliar da análise do tempo e do espaço. Há que ter prudência na análise pois o artesão, para ajustar a harmonia da representação pode ajustar detalhes.

Contudo, nesta representação que analisamos tudo leva a querer que a partir dos elementos formais se possa considerar que há alguma experiencia vivenciadas pelo autor. Foi por essa razão que nos levou a procurar identificar onde é que se localizava o tal colégio de Santo Agostinho, que ao que a gravura sugere, se encontra representado em ruína como cenário. Era vulgar, nas Lisboa oitocentista, nos dias quentes de verão, fazerem-se romarias aos lugares mais arejado pela frescura, levar alguns mantimentos para encher o estômago e saciar a sede.

E aquilo que começou por ser uma curiosidade acabou por se transformar numa surpresa, pois o Colégio de Santo Agostinho, representado na Litografia, é hoje conhecido como Convento da Graça, no pitoresco bairro homónimo sobranceiro ao Castelo de São Jorge. Trata-se duma área hoje central da cidade. Uma parte da Lisboa antiga, que sempre pensei de génese medieval. Ora, na representação, a ruína surge num espaço ermo, quase rural o que revelava pouca conformidade com a tal génese medieval. A ruína, essa seria mais coerente, pois como sabemos, em 1834 são extintos a abandonados os conventos religiosos, revertendo os seus bens para o erário público.

 

Ilustração 1-William Clark, 1840, Lisbon, Society for the Diffusion of Useful Knowledge

Na busca desta aparente contradição fui-me dedicando, nos tempos livres, a procurar identificar o local e compreender de que forma a ideia de património formando. Com efeito, na imagem acima, de um Viajante Inglês a Lisboa em 1840, pode-se verificar que o convento da Graça, em segundo plano à esquerda não surge em estado de Ruína que a litografia deixa antever.

Havia que observar com uma maior atenção o que nos chegou até hoje para entender a dinâmica do espaço. Hoje, a igreja e antigo convento apresentam um uso múltiplo. Na imagem, numa fotografia tirada da colina Castelo sobre o miradouro da Graça, verifica-se o torreão do sino, em ângulo reto da nave principal. Uma imagem que não varia muito da imagem que existe nos Arquivos da CML dos anos sessenta da autoria de Luís António Serôdio.

 

Para além desse elemento formal, o espaço ganhou alguma centralidade na vida urbana. O seu miradouro, rebatizado como de Sophia de Mello Breyner5, a poetisa que viveu nesse bairro, e que é hoje frequentado por gente nova e turista, dada a vista soberba sobre a cidade, sobretudo ao entardecer. Na sequência da implantação da República, em 1911, o espaço conventual foi novamente encerrado (a primeira vez foi em 1832, tendo-se verificado o seu retorno a partir do último quartel do século XIX). Nele serão entretanto instalados os serviços de inspeção de mancebos para incorporação no Serviço Militar Obrigatório. Trata-se dum espaço nobre da cidade, de uso coletivo. A sua evolução na cidade conta-se em breves palavras.

Na conquista da Cidade de Lisboa em 1147, Afonso Henriques, aquele que foi o primeiro rei de Portugal, instala aí o seu acampamento militar. No lugar que ficou conhecido como a Almofala6. Esse será o seu nome primitivo e esse será o lugar onde a igreja e o convento virão a ser construídos cerca de cem anos depois, para nele ser instalado a ordem de Santo Agostinho dos Ermitas Descalços. Sabemos também que o edifício que hoje vemos é uma construção do século XVIII7, na sequência da destruição do edifício anterior no terramoto de 1755. Para além das questões relativas à localização do edifício, o que nos interessa fundamentalmente é verificar como é que o espaço evolui, qual é a relação dos edifícios com a paisagem e de que forma é que essa memória é mantida e vivida na comunidade.

Quanto à questão do acampamento militar, não oferece grandes dúvidas. Sobranceiro à colina do Castelo, oferecia uma boa vigilância e proteção dos inimigos. Já que se tratou dum cerco, com auxilio duma importante frota de cruzados, era natural que os pontos estratégicos fossem ocupados no cerco.

No entanto, a questão do edifício já será mais complexa, pois as referencias não são consistentes. Segundo as descrições constantes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, nos dezasseis livros relativos ao convento de Nossa Senhora da Graça pode-se descrever o processo de constituição do convento.

O Convento de Nossa Senhora da Graça de Lisboa foi um convento masculino da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho (Ordo eremitarum Sancti Augustini), ou Agostinhos Calçados, aqui se instalando a sede Provincial da Ordem. O convento foi também conhecido por Convento de Santo Agostinho de Lisboa ou por Convento de São Gens de Lisboa. Portanto de Almofala para Graça, passando por Santo Agostinho, estamos portanto nomes em transição. Mas há que ter em atenção aos dados.

Segundo as fontes que analisamos, no século XII havia uma comunidade de ermitas sediada no monte de São Gens, junto à ermida de Nossa Senhora do Monte. Uma ermida que ainda hoje existe. Seria aí o primeiro espaço dessa comunidade? Nessa comunidade, que já seria um convento, era presidida em 1243, pelo frade agostinho João Lombardo (que teria vindo da Lombardia) que, depois do Capítulo Geral de 1256, foi encarregado pelo geral Lafranc Septala de organizar os Agostinhos em Portugal. Ainda segundo os registos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em 1271, é esta comunidade, com um total de 50 frades, que vai ser transferida para o bairro de Almofala, dentro da cidade com apoio do rei Afonso III. Em 1291 surgem como residentes no convento o então chamado Convento de Santo Agostinho.

A questão pode parecer irrelevante, mas atendendo a questão da construção da chamada “Cerca Fernandina”, uma muralha de defesa da cidade, que a história dá como tendo sido feita pelo Rei D. Fernando em 1371, no quadro das guerra com o Reino de Castela, para substituir a velha “cerca moura” que apenas incluía a cidade mourisca adossada ao morro do castelo, o novo convento passa a estar no interior da cerca, ao passo que velha ermida, embora a menos de duzentos metros em linha reta se situa nos arrabaldes, fora da cidade. Isso mesmo se pode ver na “Panorâmica de Lisboa”.

 

Ilustração 3– Panorâmica de Lisboa Gravura de Lisboa no século XVI, de George Braunio,1572. Aqui distinguimos o convento dentro do recinto amuralhado e a ermida, fora da cidade, no topo da colina. No interior uma malha já urbana, no exeriro, um espaço agrócula.(Museu da Cidade)

Estamos portanto perante uma zona de transição, entre a cidade murada e a sua envolvente, com o convento a constituir uma porta de entrada. Essa circunstância faria naturalmente acrescentar renda à ordem, o que explica o seu crescimento e expansão. Se inicialmente o Convento tinha a invocação de Santo Agostinho em 1305, vai mudar a invocação para Nossa Senhora da Graça, por disposição do oitavo Geral da Ordem dos Agostinianos, Frei Francisco do Monte Rubiano, e em cumprimento de voto por ele feito em Roma. Aí se fixa a cabeça da Ordem dos Agostinhos em Portugal, que em 1447 se autonomizam dos de Castela, constituindo uma Província. Sendo este o seu principal convento, existem também outros conventos, masculinos e femininos, no Porto, em Coimbra, Braga, Évora, Torres Vedras, Vila Viçosa, Castelo Branco, Tavira, Loulé, que agora não nos interessam. Interessa-nos reter, que este espaço de fronteira da cidade se transformar no centro agostiniano no país, atraindo com isso movimentos de gentes e bens.

Mas para além disso, como lugar de culto, onde era vulgar à época a nobreza procurar assegurar a salvação eterna, pela proximidade ao altar, assegurando a obra do convento através da instituição de capelas. Assim em 1472, sabemos que instituem capela no convento, Rui Gomes de Alvarenga e D. Melícia de Melo, pais do III vice-rei da Índia Lopo Soares de Albergaria (1515-1518). Em 1506, Afonso de Albuquerque o II Vice-rei da índia à data da sua partida para a Índia, deixa em testamento instituindo uma capela na igreja do convento da Graça, onde estavam sepultados seu pai e seu bisavô. Ele próprio será aí sepultado em 1566. Para além das famílias nobres do reino, também alguns cardeais patriarcas de Lisboa, provavelmente oriundos da ordem, aí serão sepultados.

Em 1544 o rei D. João III doa ao convento os terrenos a norte e oeste, exteriores à referida cerca Fernandina, passando então a integrar a propriedade das terras do Monte de São Gens e o Vale de São Francisco. Estamos perante um reorganização da propriedade ou uma continuidade de usos, já que como vimos, a presença dos frades neste espaço já era antiga. Sabemos que Lisboa é alvo de vários tremores de terra. O mais conhecido é o de 1755, que foi particularmente destruidor. Mas sabemos que este tipo de sismos apresenta alguma regularidade, existindo relatos dum grande sismo em 1531, e dum outro no século XIV. São evento que necessariamente afetam a estrutura do convento e exigiam obras e rendimentos.

Em 1551, residiam no Convento cerca de 70 frades, com 13 capelas, umas de instituição particular e as de Nossa Senhora da Graça, Santa Ana, São Marçal, as 3 com irmandades, Espírito Santo, da Assunção e Santa Mónica com uma renda 2.500 cruzados Entre 1556 e 1565, provavelmente na sequência do terramoto de 151, é reedificada a igreja com três naves.

Em 1572, os Eremitas de Santo Agostinho estabeleceram-se em Goa e formaram mais tarde a Congregação da Índia Oriental. O que representa a expansão da Ordem para os territórios do Império.

Uma outra questão, esta relativa à importância deste Convento no sítio, é a constituição em 1586 da Irmandade de Vera Cruz e Passos de Cristo, por Luís Álvares de Andrade, paroquiano de São Nicolau e pintor régio. Este personagem vai organizar no ano seguinte pela primeira vez a Procissão dos Passos da Graça, na Quaresma. Esta será uma procissão que se continua a realizar até à atualidade, ligando a igreja de são Domingos, no Rossio, à colina da Graça

Em 1609, em Goa, a 30 de outubro, o arcebispo D. Frei Aleixo de Meneses passou certidão em como cedia para sacrário do Mosteiro de Nossa Senhora da Graça de Lisboa, a caixa de cristal, que lhe tinha sido oferecida pelo rei de Ormuz, por ser o Mosteiro onde o arcebispo tinha sido criado, conforme carta que estava em poder do padre procurador-geral da Província de Portugal na Índia.

 

Ilustração 5 Planta de João Nunes Tinoco, de 1650, com desenho da muralha fernandina. São visíveis os dois torreões na zona norte (BNL)

Em 1755, o terramoto provoca a derrocada parcial da igreja. Com destruição da fachada, das abóbadas da capela-mor e do cruzeiro. Na reconstrução, optou-se por um interior sóbrio, ao gosto dos finais do século XVIII.

Em 1817, a 3 novembro, a Irmandade dos Passos deixou de ser titular dos cindo padrões de juros reais a ela legados por D. Frei António Botado, e em 1829, D. Miguel tornou-se provedor perpétuo da Irmandade do Senhor dos Passos, que passou a ser denominada Real.

 

Ilustração 6 Carta Topográfica de Lisboa de Duarte José Fava, 1826 (BNL)

Em 1834, no âmbito da “Reforma geral eclesiástica” empreendida pelo Ministro e Secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 30 de maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respetivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo. Os bens foram incorporados na Fazenda Nacional, tendo a igreja, a sacristia e a casa do capítulo sido entregues à Irmandade do Senhor dos Passos.

A cata topográfica de Duarte José Fava, feita em 1826, mostra-nos um espaço urbano em consolidação ao longo de eixos viários. Do convento sai um arruamento já bem definido com casario até aos quatro caminhos. No fim do largo, a calçada da Srª. do Monte já bem desenhada em direção à ermida, e em direção ao vale de Santo António, a Rua do Sol e das beatas que parecem indiciar a importância da Igreja de Nª. Srª da Gloria.

A planta de William Clark, publicada em 1840, que provavelmente teve por base a anterior, mostra com um melhor detalhe a área urbana que envolve este importante mosteiro. Nele se podem verificar o surgimento de alguma malha de acessos, que não se virão a consolidar nos anos seguintes.

 

Ilustração 7 Carta Topográfica de William Clarke, 1840 (BNL)

Interessa acentuar que na dinâmica deste espaço, o processo que conduziu à extinção das ordens religiosa, com a consequente integração dos seus bens na fazenda pública, dá o impulso decisivo à transformação do espaço, com o alargamento da cidade para além das velhas muralhas fernandinas, que em grande parte ainda permaneciam como uma barreira entre a cidade e o arrabalde.

 

Ilustração 8 Carta Topográfica de Lisboa, de Filipe Folque 1871 (BNL)

Se agora compararmos esse espaço com a Carta do Levantamento de Filipe Folque, publicada em 1871, com trabalhos de terreno ente 1856 e 1859, verificamos para além do eixo da rua da Graça, o acesso a quartel de Sapadores se consolida pelo eixo da Calçada de Santo António, criando no vale de Santo António um bairro que irá consolidar como área residencial nos anos seguintes. Importa ainda salientar que de espaço de fronteira, este pedaço de cidade torna-se entre o final do século XIX e princípios do século XX, numa importante centralidade na cidade. Para tal será porventura importante a instalação da gare ferroviária no antigo convento de Santa Apolónia, que permitirá uma ligação desta área de cidade ao resto do país. A tudo isso carece a instalação nessa área de várias tipografias e duma importante dinâmica de associativismo operário, que levará a criação da Escola Oficina nº 1 e a Sociedade “A “Vos do Operário”, duas importantes instituições de ensino voltadas para as classes laboriosas, instaladas na não menos significativa Rua da Fraternidade Operária, que reforça no final do século a ligação entre este Bairro e o Largo de São Vicente, em alternativa à velha ligação do Campo de Santa Clara.

Mas antes de avançarmos com os traços da modernidade, importa ainda esclarecer neste espaço, para além da relevância do Colégio de Santo Agostinho, da importância de outros duas construções religiosas. A capela da Senhora do Monte, e a Igreja de Nossa Senhora da Glória. A primeira no morro de São Gens e segunda encaixada no vale de Santo António. Já acima nos referimos à possibilidade de que o primitivo mosteiro estivesse localizado em São Gens. A dúvida que se nos colocou é saber se existirá uma relação entre os dois espaços, pois pela sua configuração, a sua localização a meio da encosta seria mais favorável ao desenvolvimento de atividades agrícolas, e a ermida, no topo, mais favorável à meditação.

A Capela de Nossa Senhora da Gloria que foi edificada em 1776, após o terramoto de 1755, por essa Irmandade, que nela foi constituída. Não sabemos se resultou duma reconstrução dum espaço previamente existente. Pela localização, encaixada no vale, voltada a nascente, com terrenos de encosta e possibilidade de recolha de águas pluviais, perece-nos um espaço adequado para as atividades agrícolas, tão necessárias à vida das dezenas de frades do convento.

O que sabemos é que Irmandade de Nossa Senhora da Glória decidiu construir uma capela dedicada à Virgem Maria onde se abrigasse um painel “que existia junto da forca, ao cardal da Graça”8. Um painel que evocava a Senhora da Glória, objeto de culto da população. Uma informação que nos revela, a presença duma forca, instrumento de punição, provavelmente eclesiástica e de um cardal, um espaço que indicia a presença de um terreno seco. A flor do cardo era, nos temos anteriores à industrialização, um dos processos de proceder à fermentação do leite para a fabricação do queijo. Um espaço que coincidirá com os quatro caminhos.

Ilustração 9– Pormenor da Grande Vista de Lisboa de Gabriel del Barco, silhar de faiança de 1725, Lisboa, Museu do Azulejo. Representa uma vista da cidade de Lisboa antes do grande terramoto de 1755. Ao fundo, no alto do Cerro é visível o convento do Carmo isolado.

Quanto à Ermida da Senhora do Monte, sabe-se que a atual construção data de 1796, num local um pouco mais acima do local original, arruinado com o terramoto de 1755 e é obra do arquiteto Honorato José Honorato José Correia de Macedo e Sá 9 Ora se primitiva ermida se situava a meio da encosta, e teria sido construída, segundo a tradição no local onde o primeiro bispo de Lisboa, São Gens teria sido martirizado, reforça-nos a dúvida sobre a possibilidade da sua ligação à tal Capela da Senhora da Glória.

Também relevante para a nossa pesquisa está a questão do culto a são Gens. Segundo os relatos da tradição os frades Agostinhos tomaram conta da ermida, colocaram no seu interior, a cadeira de pedra que pertencera ao santo. Essa cadeira deu origem a uma lenda segundo a qual, as senhoras grávidas que lá se sentassem tinham partos sem complicações. Maria Ana de Áustria, Rainha de Portugal, mulher de Dom João V foi lá sentar-se quando estava grávida do herdeiro do trono. Daí a questão da romaria que manterá a centralidade cíclica do como local durante mais de quinhentos anos.

Esta atividade terá também marcas no espaço. Como já vimos acima em 1271 os eremitas de Santo Agostinho mudaram-se para o antigo campo militar, edificando o Convento da Graça. No local foi criada a irmandade de São Gens, tendo-se o seu culto mantido ao longo dos anos. Com a expansão da ordem dos agostinhos, este recuperam a direção do espaço em 1306, sendo governado por um capelão e um donato. Como vimos, Dom João III em 1540, reforçará a propriedade do espaço. Em 1755 a ermida é completamente arrasada no terramoto, tendo sido reconstruída, primeiro em madeira, e posteriormente pela estrutura atual, numa localização ligeiramente mais acima do original. A ermida mantém-se até à atualidade como lugar de culto das mulheres grávidas. Os seus usos mantêm-se para além das dúvidas de sobre o espaço. A questão relevante será portanto tentar identificar, neste espaço, se as marcas dessas atividades sociais estão presentes como património.

Com a extinção das ordens religiosa em 1834 as propriedades dos Agostinhos no Monte são adquiridas por Clemente José Monteiro, a quem o Governo confia a conservação e manutenção do culto na ermida. Com o falecimento deste, em 1848 é reorganizada a antiga irmandade dos Escravos de São Gens e de Nossa Senhora do Monte, tendo voltado à administração agostiniana. Com a extinção das ordens religiosa, os bens dos frades Agostinhos da Graça revertem para a Republica. Como podemos constatar, o culto mantém-se para além da propriedade e das formas de gestão do sítio. O que parece ser determinante neste domínio é a relevância social que lhe é atribuída, que se vai mantendo e ajustando às diferentes dinâmicas políticas.

 

 

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