Os Lusíadas (variações sobre um tema recorrente)

Vela parda, barca sem leme

ao leme da aventura desventurada

sobre estas praças regressamos, granito

e basalto, livro de estátuas perfiladas

à friagem do sono sem sonhos.

As chagas do tempo e da febre,

as cicatrizes da ausência e do olvido,

emprestam à madeira corroída

dos rostos uma pintura de estrangeiros.

Incómoda memória sangrada

em silêncio, através da noite perplexa,

sobre a praia original descemos.

Surda e endurecida no gosto

da cobiça, não concede a pátria

o favor que havia de acender

o engenho. E a magra tença,

se mal resguarda o corpo enfermo,

menos guarda o inverno da alma.

Em cinzas e sombra ao abismo

baixaremos: esconjuros e autos-de-fé

não logram corromper a árdua

incomburência do testemunho

que somos; mais que a fria

laje da hipocrisia, durará

o remorso desta voz enrouquecida.

Publicado em Ma-chamba

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