A Lusografia

A LUSOGRAFIA, A LUSOFONIA E EU

por Eduardo White in Seminário sobre a Lusografia realizado em Fevereiro 2008 na Universidade Eduardo Mondlane no Maputo.

eduardowhite

O tema é, realmente, de muito interesse, mas confesso que são pequenas as minhas balizas sobre as Lusografias, sobre as lusofonias, ou melhor sobre esta coisa de lusos daqui, lusos de lá, para que o abordasse de outra maneira que não esta. Por isso, pergunto: Que geografias terá a minha grafia? As da minha língua? As das línguas da minha língua? Estas são, de repente, as perguntas que me ocorreram quando um amigo propôs-me o desafio de questionar-me, enquanto “poeta”, nesta coisa a que chamam lusografias. Decidi, então, procurar outras perguntas a partir de um Dicionário Universal de Língua Portuguesa. Recomendei-me, antes: Eduardo, não academizes nada, não és um académico. Ok. Vamos lá, por ordem, percorrer o abecedário do vocabulário. Na página 763 do tal dicionário, logo no topo, entre a numeração, duas palavras constituíam os dois lados do portal. À esquerda, gramaticologia que é o mesmo que dizer “o estudo científico da gramática. Do lado direito, granitificar que é o mesmo que ler “ transformar ou transformar-se em granito “. Logo pensei:. A falta de chão à esquerda levar-me-á, por certo, a empedrar-me à direita. Porém, aquietei-me. Decidi: Eu vou mas é percorrer tudo isto como percorro a escrita quando escrevo. E, assim, encontrada a palavra grafia, descobri-lhe, igualmente, o primeiro recuo. Grafia estava na página anterior. A 762. Muito bem. Vamos procurar-lhe a gema. E o que encontro no nutritivo amarelo da grafia, antes de qualquer outro significado, é isto : modo de escrever. Respirei fundo. Limpei-me dos medos. Retomo à palavra lusografia. Reparo que necessito de procurar definir, para melhor entender, a expressão luso. Soletro: g, h, I, j, l. Eis o l, na página 762. Do lado direito da numeração a palavra lupinotoxia, ou o mesmo que alcalóide venenoso dos tremoços. Deduzo, bem moçambicanamente, a envenenada anedota. Tremoços, Eusébio, Portugal. Estou perto. Leio, depois, no lado esquerdo luto: sentimento de pesar pela morte de alguém, mágoa, tristeza. Viajo, pela memória, no traje preto da varina da minha avó portuguesa. As suas amigas todas de preto na Madragoa. Oiço-lhe o fado. É aqui que paro. Digo-me. Dedo coçando o papel, encontro mesmo a palavra Luso, que será dizer lusitano, português, lusíada. Portanto, lusografia significa modo de escrever lusitano, português. Mas, porque carga de água pede-me o Cezerilo que eu escreva qualquer coisa sobre o modo de escrever português? Sobre o assunto, escrevem certamente melhor, os portugueses. Deixa-me perguntar-lhe. Agarro na minúscula tecnologia da mal encarada emecel e disco-lhe o contacto. Alo? Cezerilo? Não entendo bem. Afinal, o que me estás a pedir é que escreva sobre o modo de escrever português. Não caberá, mais abalizadamente, um escritor português escrever sobre o tema ? Não, mano Dino, diz-me ele, eu pedi que escrevesses sobre as lusografias. Bom, volto a pensar sobre o assunto. Não vá isto ser susceptível de ser uma visão xenófoba. Ponho a questão noutros termos. Assim: Lusografia, modo de escrever o português. E, nisto, logo se me põe outra cogitação. É que esta expressão, modo de escrever o português transporta-me a uma visão oliveirista mas não salazarista. Quero dizer, remete-me àqueles conteúdos dos filmes do Manoel Oliveira, ou seja, a essa visão do ser português. Bonacheirão afável e o humilde triste. Então, que tem isto a ver com este espaço onde me pedem para que disserte sobre Lusografia? Chamo pela Augusta, que é a minha companheira, e peço-lhe: Augusta, ajuda-me lá a ordenar as ideias. Estou encalhado à volta do assunto das lusografias. E ponho-lhe as palavras sobre o papel: 1. Luso. 2 grafia + tudo junto = Lusografia. Agora traduzamos para a nossa língua portuguesa a palavra. Muito bem 1. modo de escrever português. Faz-te sentido? A minha augusta Augusta sentencia. Modo de escrever português significa a maneira como escrevem os portugueses. Santa minha Augusta, exclamo, é também assim que o pensei. E se te puser a frase de outra maneira. Desta: modo de escrever o português. Diz-me ela. A maneira como se escreve o modo de ser português. Iluminada mulher, a minha, que esclarece os meus escuros. Penso, enquanto agradeço correctamente em língua portuguesa a Augusta. Mas, assim mesmo, me lembro de outro assunto: Minha mãe, portuguesa distinta da Madragoa, a chamar-me a atenção para os bons modos quando peço e recebo a sua ajuda. Diz-me ela: Agradece sempre o que recebes. E é nisto que me vem a fotografia do meu modo de escrever o português e que é o retracto escrito de minha mãe. Educada, sensível e terna. Mas, também, é este o meu modo de escrever em português: educado, sensível e terno. Então, se são todos estes modos, modos de escrever e até de entender, como entenderei o facto de em nenhum dicionário de português por mim pesquisado não vir referenciada a palavra lusografia? Ou será mais uma nova expressão da nossa sempre inventiva língua portuguesa? E estará assim a minha língua a lusitanizar-me? Eu moçambicano a falar-me com a minha realidade sociolinguística? E se me chamam, após tudo isso, de lusófobo? Não o podem, até porque o meu saudoso amigo Professor Manuel Ferreira lembrava-nos já que as modificações que a língua vem sofrendo nestes múltiplos espaços, criando situações de diglossia, vai, por simpatia, explodir nas línguas escritas, nomeadamente no texto texto literário. Daí que as literaturas destes países acusem, claramente, as interferências de outras línguas que não a portuguesa e a incorporação de novas aquisições lexicais provenientes dos novos espaços humanos, geográficos e sociais, e deste modo se organizam. As cartas de amor do meu meu pai, que é de Angónia, lá para o norte de Moçambique, deveriam ser um belo testemunho disso. Sempre escreveu como tetense o gordo murchem no caril e amou a minha mãe com os mais belos versos chuabenses. Tudo em Língua Portuguesa doutras crioulas grafias. Está pressuposto aqui que a grafia da Língua Portuguesa no meu caso, amoçambicanizou-se. Afinal, uma língua também se escreve como se a fala. Porém este facto é uma fatalidade que recai sobre uma língua desde que no quotidiano seja confrontada por outras Línguas que circulam com intensidade no mesmo contexto. Aqui, com estes pontos de vista, começo a tocar na questão da identidade, quero dizer, na moçambicanidade impercebível da minha língua que tem de entre outras identidades também e não somente a lusitanidade. Desconsigo-me na cabeça. É que toda a vida pensei que a minha moçambicanidade tinha por língua a minha moçambicanidade, quero dizer o meu moçambiquês e a minha moçambigrafia que é também donde eu entendo, vejo e respeito o lado da lusitanidade da minha língua. Mais claro, onde eu Eduardo White, moçambicano, me vejo a olhar a minha mãe, Maria Helena, portuguesa. Seja, na mesma língua com modos diferentes. Só para melhorar a ideia, a minha mãe portuguesa respeita com a lusitanidade com que está na sua língua a moçambicanidade com que a oiço na minha. O facto é tão somente este, falamos eu e a minha mãe a mesma língua com duas identidades diferentes. E como escrevemos a língua em que falamos, de que modo escreve a minha mãe português? Ou por outra, de que modo escrevo eu português? Como é que respondo a esta baralhada toda na língua portuguesa? Chamo de novo pela Augusta. Augusta, responde-me lá tu a estas perguntas, mas em português, peço-lhe. Reparo, assim, que a Augusta me responde em Língua Portuguesa com a sua Língua Portuguesa. Interessante isto. A Augusta a responder-me com a sua Língua que é a minha e que só é a mesma na identidade que nos cobre, a nossa moçambicanidade, mas completamente distinta no modo diferente das nossas origens. As terras onde nascemos. Mas isto no português é uma confusão. Perdão, não é isto o que queria dizer. O que quero dizer é, isto na Língua Portuguesa é uma confusão. Incrível como quer dizer tantas coisas a minha Língua. E querendo dizer muitas coisas, diz, por certo, muita gente. E eis que se me torna claro que há muitos povos diferentes a falar diferente a mesma Língua. Há várias normas e, logicamente, umas tantas Variantes. Não tenho dúvidas. A Língua Portuguesa é o património colectivo de cada um dos povos que a fala, ou não tivesse ela nascido no universo de cada um desses povos. Uma Língua falada é uma Língua que está permanentemente a nascer porque se não o faz no seu processo de ser Língua, gente, cultura, ideia, civilização, ela morre. Como é evidente, falo isto do modo que penso, muito moçambicanamente na minha Língua, com a minha língua e sobre a minha língua. Porque a língua tem sempre a identidade de quem a fala mesmo não sendo ela a sua língua. No entanto esta realidade, da Língua Portuguesa, tem simultaneamente o valor de verdade e o valor de falsidade. Quero dizer, é uma realidade que é e não é. A Língua Portuguesa é nossa, e não é nossa, e não é só nossa, porque sendo ela propriedade dos povos que a falam, é também ela fruto do que ganha com as outras línguas que também falam e são as desses povos. Em suma, a Língua Portuguesa é o que é nas diferentes maneiras de a pensarmos, de a escrevermos e de a sermos. Angolanos, Brasileiros, Caboverdianos, Guineenses, Moçambicanos, Portugueses, São Tomenses e quase ainda Timorenses. Mas retomo de novo, e se mo permitem, a lembrança do Professor Manuel Ferreira muito a propósito dos cinco: Os cinco partiram do princípio de que a língua é um facto cultural e os factos culturais começam por pertencer a quem os produz é certo mas a partir daí deixam de ter dono. São de quem os quiser ou tiver necessidade de utilizar. Reapropriaram-se da Língua Portuguesa como se deles fosse. Assumiram-na com toda a dignidade e naturalidade e agora reintroduzem-na por todo o seu espaço nacional, dando-lhe um estatuto nobre ao tempo que a vão interiorizando, tornando-a totalmente sua. Tão sua que a modificam, a alteram, a adaptam ao universo nacional ou regional e a transformam no plano da oralidade e no plano da escrita. E aqui, gostaria de fazer um aparte. O já meu celebérrimo Dicionário Universal de Língua Portuguesa, na página 101, vem como significado de anglófono o que se diz do indivíduo ou do povo que se exprime em inglês. Sem dúvida mas com curiosidade perguntei a um amigo Sul-Africano se existia na sua língua a expressão anglófono. Ele respondeu-me negativamente. Pego então no dicionário de Português – Inglês da Porto Editora e constato que a palavra não existe mesmo. Mas e existiria então tradução para lusófono? E a que encontrei foi esta: Portuguese; Portuguese speaking. Estranha e também curiosa a pobreza desta tradução. Mas bom, é uma questão que levanto porque não poucas vezes me confunde muito essa coisa de povos lusófonos com as suas lusofonias e as suas lusografias. Complica-me um pouco a cabeça que ainda falem de nós como povos lusófonos. E porquê esta carga toda de desidentidade? Porque falamos a Língua Portuguesa? É certo que não podemos fugir ao facto de que a Língua que todos falamos é a Língua Portuguesa que também é a dos povos lusófonos. Do Norte a Sul de Portugal. Mas não podemos correr o risco de que ao contextualizarmos essa realidade, desatribuamos com uma só identidade todas as outras identidades que é, por natureza, a Língua Portuguesa. Mas como na Língua Portuguesa também é comum a susceptibilidade, advirto já que não pretendo que sintam neste meu discurso, mais do que não seja apenas o querer levantar assuntos que não me são muito claros e que aspiro ver, em parte, aqui aclarados. Até porque, esta questão desta só identidade da Língua Portuguesa, tem sido quase que uma desajuda nos debates sobre as identidades dos povos africanos que falam esta língua. É que nenhum deles quer voltar a ser luso. Pelas razões que são bastamente conhecidas. A História e as identidades dos nossos povos se cruzaram há muitos anos, porém, há menos anos ainda se reescrevem em Língua Portuguesa. É preciso muito tacto quando as designamos e mais ainda quando as definimos. Não vá acontecer estarmos a cobrar, involuntariamente, aquilo que devemos. Este conceito das lusografias, no contexto dos povos lusófonos e da sua lusofonia deixa-me um pouco com o pé atrás quando tento perceber as suas motivações e finalidades. E porquê? Porque mexe com as identidades de cada um dos povos que se vêem, deste modo, injustamente inseridos nesse quadro que respeito e que é o da lusitanidade. Onde fica nesta designação a pluridentidade da Língua Portuguesa escrita e falada? Este é um facto, não podemos contorná-lo, muito embora possa ser um ponto de vista discutível como creio que é e como eu gosto de tornar as coisas quando não as percebo muito bem. Portanto, para terminar a confusão que é tudo isto na minha cabeça, peço-vos desculpas se este texto não faz absolutamente nenhum sentido aqui. Mas creio que concordarão que terá sentido que um cidadão falando e escrevendo da cidadania que lhe confere a sua Língua, a permita retractar nas inúmeras fotografias da prolixidade que acaba por ser a realidade da mesma.

Publicado por JPT in Ma-chamba

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