História da Marrabenta por João Domingues

Narração de João Domingues (1933-2016)

A música moçambicana perdeu na madrugada deste sábado(10) um dos seus grandes intérpretes e compositores: João Domingos. Faleceu na capital da Inglaterra, na companhia de uma das suas filhas, para onde se havia deslocado para tratamento médico depois de ter sido acometido por dois acidentes vasculares cerebrais(AVC). O @Verdade recupera uma cavaqueira publicada por ocasião do seu octogésimo aniversário na qual revelou a sua infância em Inharrime, na meridional província de Inhambane, onde nasceu a 13 de Maio de 1933, e onde contou que “ninguém inventou a Marrabenta”, o ritmo musical surgiu num bar dos Comorianos no bairro da Mafalala, e ainda revelou que a Rumba é originária de Moçambique.

Por mera coincidência, no tempo colonial, apareceu em Lourenço Marques um magaíssa, nome que se dá ao moçambicano que trabalha nas minas na África do Sul. Nessa altura, existia a Witwatersrand Native Labour Association, Wenela, instituição que recrutava mão-de-obra para a Terra do Rand.

O referido sujeito, cujo nome é desconhecido, permaneceu na Wenela, onde aguardava os seus bens que haviam ficado retidos no país vizinho. Durante a sua estada, foi-lhe assegurada toda a assistência logística. Ora, como naquela época a maior parte da região que, hoje, constitui a cidade de Maputo era uma mata desabitada, ele resolveu deslocar-se até o bairro da Mafalala.

Nesse subúrbio, na altura, havia prostíbulos e bares, um dos quais, o mais famoso – porque possuía o melhor conjunto musical de Lourenço Marques –, e que era bem equipado em termos de instrumentos musicais, pertencia aos Comorianos. Por lá também actuava Daíco, um guitarrista autodidacta genial. A qualidade das suas performances assemelhavam- se às de Django Reinhardt, um artista francês que tinha um defeito na mão direita, tocando a guitarra com a mão esquerda.

No Bar dos Comorianos, artistas como Daíco, Pacheco, Chico Albazine e Ricardo da Silva constituíam o conjunto musical local. O espaço era maravilhoso e tocavam-se ritmos musicais como Magika – que tem origem na província de Gaza –, Dzukuta e Makhara – provenientes de Inhambane, existindo desde antes de 1900 –, Xipfapfapfa – muito praticada em Matutuine, Katembe, Matola, Infulene, Boquisso e Marracuene –, incluindo Pop, Rock, Swing, Rumba, Tango, Samba, entre outros estilos de música estrangeira.

Mas também existia o senhor Napita, o músico mais fraco do conjunto, originário da província de Gaza. No entanto, ele tinha a guitarra mais afinada e soava bem. Eles tocavam, mas não tinham a consciência do estilo musical que produziam. Numa dessas ocasiões, na presença do magaíssa, no conjunto musical do Bar dos Comorianos, Napita tocou a sua guitarra de tal sorte que os presentes o aplaudiram. Instantes depois, rebentou-se uma corda da viola.

O magaíssa gostou do que escutou, mas não sabia como chamar àquela música – até porque ela não tinha nome. Por isso, certa vez, pediu aos artistas que lhe tocassem a música que rebentava em troca de cervejas. Ora, tomar cerveja de graça, num dos bares mais célebres do bairro da Mafalala, era uma prática muito rara para os músicos. Por isso, responderam favorável e satisfatoriamente. Os eventos aconteciam, constantemente, aos sábados, à noite, e aos domingos, à tarde.

A maior parte dos membros do conjunto musical – Daíco, Ricardo e Pacheco – era constituída por desempregados. Em resultado disso, passavam quase todo o dia no Bar dos Comorianos. O pior é que eles não podiam comprar uma cerveja. Sucedeu que certo dia, de repente, eles viram o magaíssa e acharam que – porque o Rebenta acabava de chegar – podiam tocar música para ganhar algumas cervejas. Mas como não conheciam o seu nome, chamaram-no do modo seguinte: “Marrabenta Hinga Buya, Venha Cá Marrabenta”.

A partir daí a adjectivação daquele ritmo como o que rebenta, bem como a substantivação do magaíssa como Marrabenta tornaram-se rotineiras, virando tradição. As pessoas nunca mais pararam de dizer Marrabenta, embora o género musical não existisse ainda. Desconhece-se, porém, quem inseriu o prefixo Ma no verbo Rebenta.

Mas foi assim que se criou a palavra Marrabenta – a partir da qual se passou a designar um ritmo musical. Ora, é muito interessante notar que em Quelimane existe um ritmo musical chamado Utxekeliwa muito parecido com a Marrabenta. A única diferença é a forma como as senhoras dançam, fazendo movimentos circulatórios.

Entretanto, com o passar do tempo, os ritmos que se tocavam mudaram de nome. Deixaram de ser Xipfapfapfa, Dzukuta, Magika e passaram a chamar-se Marrabenta só por causa da história desse magaíssa. E, assim, por mera casualidade, surgiu o nome. No entanto, dizer que se desconhece a pessoa que inventou a maneira de dançar a Marrabenta é pura mentira.

Dilon Djindji é mentiroso

Nós não devemos entrar em alarme quando Dilon Djindji afirma que é o rei da Marrabenta. Isso é o de menos. No entanto, é inadmissível que – porque isso é um grande erro – ele diga que inventou a Marrabenta. Isso é uma mentira pura. Ninguém inventou a Marrabenta.

Aliás, muito recentemente, no âmbito das investigações do ARPAC, um jornalista perguntou-lhe sobre a mesma história. Ele elaborou um conto – sem pés nem cabeça – de acordo com o qual persuadia as raparigas a serem suas namoradas, dizendo “menina namora comigo senão eu vou-lhe rebentar o focinho”. É uma cena risível – que é uma mentira, como também o é o facto de dizer que inventou as danças da Marrabenta.

Dilon é tão vaidoso de tal sorte que acabou por menosprezar o Conjunto Djambo. É aí onde se encontra o contra- senso das suas palavras porque quem o levou ao palco, em Maputo, são os membros do Conjunto Djambo, em 1965, a fim de actuar no Centro Associativo dos Negros da Província de Lourenço Marques. Na sua primeira actuação, com o medo de enfrentar o público, Dilon Djindji escondeu-se atrás do palco, usando uma cortina.

Quando foi reconduzido ao palco, por Domingos Mabombo, ele fez uma actuação brilhante que lhe valeu aplausos do público. Entretanto, numa mentira manifesta, ele afirma que começou a tocar em 1940. Mas isso não pode ser verdade porque, nesse ano, ele devia ter uns 13 anos. Dilon Djindji introduziu-se na música de acordo com o que narro. Ele tocava Xipfapfapfa e não Marrabenta.

Para agravar as suas mentiras, o autor de Podina dissemina na comunicação social que possui mais de 80 músicas, quando, na verdade, ele não tem mais de quatro ou cinco composições. De 1965 até hoje, ainda não ouvi as suas novas músicas.

Ele repete as mesmas obras nos concertos. Mesmo as músicas que ele canta hoje – sobre Maria Tereza e Podina – não são Marrabenta. Trata-se de Xipfapfapfa. Ele fundamenta a sua mentira alegando que é o artista moçambicano – que canta Marrabenta – mais conhecido fora do país. Os factos mandam-nos dizer que ele começou a ser popularizado há poucos anos, graças ao Projecto Mabulu de que fez parte, antes, nunca tinha viajado com a finalidade de fazer concertos na Europa. Por exemplo, mesmo aqui em Moçambique, ele não é conhecido na província de Inhambane. E nunca pôs os pés em Tete. Se por lá sabem que existe um artista chamado Dilon Djindji é algo actual, resultante do fenómeno da televisão.

Não pode ser verdade – como afirma Dilon Djindji – que o Conjunto Djambo não tem grande popularidade fora de Moçambique, porque esse é o único grupo moçambicano cuja música, Elisa Gomara Saia, se toca em vários países como, por exemplo, a América, o Brasil, incluindo a Rússia. Ela foi composta pela bailarina Rosa Tembe, tendo-se tornado popularíssima.

Dilon Djindji é uma pessoa que possui o descaramento de afirmar que ensinou Fani Mpfumo a cantar Marrabenta. Ora, Fani é o maior compositor moçambicano da Marrabenta de todos os tempos até a actualidade.

Perguntem-lhe se está disposto a enfrentar um detector de mentiras. É que, para mim, uma forma de acabar com as inverdades de Dilon Djindji é colocá- -lo a falar perto de um detector de mentiras. O instrumento irá explodir com tantas falsidades ditas.

Por exemplo, eu aprecio-lhe como músico, mas detesto-o como mentiroso. Porque mente demais. Ou seja, Dilon é um artista da minha geração. Por isso, eu não discordo da sua opinião quando afirma que Fani Mpfumo cantou que em Marracuene havia um rei da Marrabenta, e que se referia a ele. O problema é que Fani não disse que estava a falar de si como nos impinge.

Por essa razão, quando Dilon fala – sobretudo acerca da sua relação paternal com a Marrabenta – nem vale a pena levá-lo em consideração. Ele faz uma manifestação típica de um vaidoso. Como se sabe, a vaidade é a aflição do espírito.

A dança e outros ritmos

No mesmo período, também existiu um bailarino de nome Jaime Paixão, ou simplesmente Zagueta, que praticava várias danças com perfeição. Fazia o que Michael Jackson fez, no bailado, de forma genial. Além do mais, possuía uma dama com quem dançava.

As pessoas dançavam a Rumba e a Magika agarradas, mas, contrariamente, Zagueta e a sua dama bailavam separados, deslizando de um lado para o outro. Foi nessas circunstâncias que se criou a maneira como se dança a Marrabenta. Infelizmente, com o passar do tempo, desapareceram as coreografias feitas para a Rumba, o Dzukuta, a Magika e o Xipfapfapfa.

Os norte-americanos quando o viram a dançar, vieram a Moçambique filmar Zagueta a praticar sapateados. Algum tempo depois, enviaram uma revista, dos Estados Unidos, em que o consideravam um dos quatro melhores bailarinos do mundo, a seguir a Mikey Rooney, o terceiro. Gene Kelly, era tido como o segundo, e Frad Astaire o primeiro. Todas estas peripécias, incluindo a história do magaíssa e a confusão que originou o nome Marrabenta, sucederam-se até o período anterior a 1940. Quando eu cheguei a Lourenço Marques, em 1953, já se conhecia a Marrabenta como tal.

O Unce

É um ritmo de música tradicional que, na verdade, era um ritual praticado em cerimónias familiares como casamentos e lobolos. O Unce é originário de Zanzibar e chegou a Lourenço Marques através de Juma Mulindi que mais adiante ensinou a sua prática a Juma Mukatchita.

Todas as composições desse género – incluindo algumas, actualmente, interpretadas por Wazimbo – foram criadas por Mulindi, não obstante o facto de, quando ele encontrou a morte, Juma Mucaxita ter disseminado o facto de que era o autor das músicas.

A Rumba é nossa

Nos dias actuais, as pessoas pensam e afirmam – porque não conhecem a verdade – que a Rumba é música cubana. Mas ela é originária de Moçambique.

Por volta de 1905, os portugueses começaram a praticar o Xibalo, a escravatura, no país. Eles prendiam os moçambicanos transportando-os, nos barcos negreiros, como escravos a fim de trabalharem nos canaviais de São Tomé e Príncipe. De lá, eram transferidos para Cuba e para outros países. Com eles levaram um ritmo musical que se chamava Gumba, ou Gumba-Gumba.

Quando esses escravos chegaram a Cuba, as suas músicas, cantadas em Ronga, foram traduzidas para a língua local. E no lugar de se chamarem Gumba passaram a ser Rumba. Ou seja, na palavra Gumba substituíram o G pelo R, criando-se a Rumba – mas não conseguiram mudar o ritmo da música. O que pretendo explicar é que, da mesma forma que os brasileiros, no lugar de chamar Semba, designam Samba à música angolana, os cubanos chamaram Rumba à nossa Gumba.

Outras referências dos anos 60

Ao longo de 1960, também houve vários e brilhantes criadores da Marrabenta como, por exemplo, Francisco Mahecuane e Alexandre Jafete – que se podem intitular verdadeiros tocadores do género como o fazia Fani Mpfumo – e o compositor Eusébio Johane Ntamele. Entretanto, o maior compositor da Marrabenta – que eu conheci quando tinha oito anos – chama-se Ossumany Valgy.

Foi Ossumany Valgy que me falou sobre a história da Gumba que se tornou Rumba em Cuba, quando a cidade de Lourenço Marques era um presídio, que funcionava na altura em que a urbe se chamava Delagoa Bay. Nas proximidades da Malanga. Esse compositor era membro do Conjunto Zandamela que se chamava Orquestra. Eles tinham uma bateria a qual chamavam jazz, dois banjos, um bandolim e duas violas. No entanto, Ossumany Valgy tocava maracas que se chamavam guizos.

Ao ver-lhe a tocar o seu instrumento fiquei extasiado. Era muito bonito. Uma maravilha! Eles dançavam Makhara. De qualquer modo, é preciso esclarecer que a componente erótica da Makhara é algo muito actual. Como se sabe, muitas vezes, nos dias actuais, vemos crianças na televisão bailando de forma sensual. O que elas fazem não tem nada a ver com a dança.

Por exemplo, a cantora moçambicana Neyma Alfredo possui uma música muito bonita – em que canta “a Marrabenta anima a Neyma” – o problema, uma pena, é que tal obra não é Marrabenta, é Fena. Trata-se de um ritual em que os homens dançam imitando os movimentos de um macaco. Além do mais, ela não é a culpada. O problema é das pessoas que dizem que Neyma é a diva da Marrabenta.

Por exemplo, recentemente, Dilon Djindji e Roberto Chitsondzo propalam, por aí, que não se pode cantar a Marrabenta em português. Mas isso é um problema deles. Uma espécie de dor do cotovelo, por causa do sucesso que Stewart Sukuma – que canta em português – possui. Diria que o errado que há nesse artista é dizer que a Marrabenta “é nosso samba”. A Marrabenta é um ritmo e não uma língua. Por isso, pode-se cantar em qualquer idioma.

Artigo de Jornal “Verdade