Realizou-se em junho de 2014 ,na Fundação Calouste Gulbenkian  no passado mês de junho a conferência Espaço Lusófono 40 anos  1974-2014, com uma organização do CEsA

Em 2014 celebra-se o 40.º aniversário da queda do Estado Novo. Com a revolução de Abril de 1974, o fim da guerra colonial em África desencadeou importantes transformações em Portugal e nos antigos territórios africanos. Após a rápida independência das colónias africanas, acelerou-se a viragem europeia de Portugal: ainda que esta tivesse raízes anteriores, foi o 25 de Abril que abriu caminho à crescente internacionalização da economia e à democratização política que culminaram, em meados dos anos 1980, com a adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE). A vivência de um novo destino europeu pareceu impor-se, a partir de então, à sociedade portuguesa, empenhada no virar da página da sua longa história imperial. Porém, as mudanças operadas pelo 25 de Abril foram além quer da democratização política e integração europeia de Portugal, quer da independência e subsequentes trajectórias autónomas dos territórios africanos.

Em particular, este momento de viragem histórica esteve na origem de uma significativa recomposição dos laços e fluxos que uniam e unem os diversos territórios que constituíam o antigo espaço imperial, entretanto reconfigurado como espaço lusófono. O retorno e gradual reintegração de cerca de meio milhão de cidadãos e cidadãs portugueses no contexto da descolonização; a emergência e consolidação de um sistema migratório pós-colonial, inicialmente polarizado pela ex-metrópole (e na qual o Brasil também participou durante algum tempo como país sobretudo emissor), mas que registou recentemente, e especialmente no contexto da actual crise económica portuguesa e europeia, uma complexificação –e por vezes inversão –dos fluxos migratórios (incluindo nomeadamente um afluxo significativo de migrantes portugueses em direcção ao Brasil, Angola e Moçambique); a crescente mobilização cruzada de investimentos directos e participações empresariais entre o Brasil, Portugal e a África lusófona; e um conjunto diversificado de trocas materiais e simbólicas entre os países em questão, do comércio de mercadorias à oferta cultural, ao longo destas quatro décadas –eis apenas alguns exemplos reveladores da multidimensionalidade e multipolaridade dos fluxos que caracterizam o chamado “espaço lusófono”.

Numa fase de significativas mutações nos diversos pólos deste espaço –decorrentes, nomeadamente, da crise económico-financeira portuguesa; da fulgurante ascensão económica, ainda que a partir de condições muito diversas, do Brasil, Angola e Moçambique; e das transformações e/ou dilemas mais específicos que caracterizam as trajectórias recentes da Guiné-Bissau, de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe –, este 40.º aniversário constitui um momento de especial pertinência para uma reflexão em torno das trajectórias políticas e socioeconómicas dos diversos pólos deste espaço e, em particular, dos seus encontros e desencontros. E isto passa necessariamente por explorar e compreender a construção e reconstrução socioeconómica e identitária no seio do espaço linguístico comum euro-afro-brasileiro.

Assim, esta conferência surge como uma resposta à necessidade de se analisar –numa perspectiva de abertura interdisciplinar, paradigmática e resistindo a qualquer tentação etnocêntrica (seja ela de matriz portuguesa, africana ou brasileira) –as trajectórias económicas e políticas prosseguidas neste amplo espaço de referência.Por isso, terá em conta a evolução socioeconómica e política comparada, entre 1974 e 2014, das diversas polaridades nacionais (Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Moçambique), bem como as relações multidimensionais estabelecidas entre elas. Ao analisar estas trajectórias, a conferência pretende promover o debate e reflexão em torno das seguintes questões fundamentais:

  • 1) Será que existe um verdadeiro espaço lusófono para lá da representação imaginada de raiz lusotropical?
  • 2) Quais as características e tendências principais, a nível económico, político e social e cultural, que marcam o relacionamento entre as diversas polaridades deste espaço ao longo destas quatro décadas?
  • 3) Integração no espaço lusófono, regional e global: exclusão ou complementaridade?

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