A Lusotopia e o ICOM.PT

Na continuidade das atividades das anteriores Comissões Nacionais do ICOM.PT pretendemos no próximo atual triénio reforçar as ligações entre os profissionais de museus dos países e comunidades de expressão lusófona e aumentar o uso da língua nos vários comités de trabalho, nomeadamente no AFRICOM.

É um objetivo que se defronta com várias dificuldades que para serem ultrapassadas obriga-nos a mobilizar a vontade dos vários atores. Como sabemos, o ICOM organiza-se em comités nacionais, em comités internacionais temáticos, alianças regionais, organizações filiadas, e comités técnicos. Para além de Portugal e Brasil, dos vários países Africanos de Expressão Portugueses apenas Angola formalizou a criação do seu comité nacional. Nos restantes países lusófonos os seus profissionais ainda não estão organizados em comités nacionais.

Uma situação resulta da fragilidade da relevância das instituições museológicas como instrumento de desenvolvimento. Com efeito, durante demasiado tempo, os museus foram olhados como instituições do passado, como locais e atividades que não assumiam significado no desenvolvimento do país. Muito embora a cultura fosse considerada um recurso para a afirmação destes novos países, as várias políticas culturais não valorizaram, salvo alguns casos, as diversas instituições museológica.

Para ultrapassar inexistência do comité nacional, alguns profissionais destes países africanos, conscientes da relevância da sua integração em redes internacionais, procuram um contacto com através do AFRICOM, uma organização filiada no ICOM que reúne profissionais de museus do continente africano. Todavia, a participação nesta organização, envolve alguns custos para os profissionais dos museus, que em muitos dos países são difíceis de assumir.

As vantagens dum profissional de museus em estar associado a uma plataforma nacional são múltiplas. A associação e uma organização profissional é um modo de criar canais de comunicação com outros profissionais e museus, que asseguram a continuidade formação de competências pessoais e profissionais ao longo da carreira. Os comités nacionais, por estarem mais próximos das realidades locais constituem o modo mais adequado do de assegurar a conexão da diversidade cultural dum território e a sua discussão no plano internacional.

A pertença ao ICOM é uma forma de assegurar uma representatividade adequada das diferentes culturas locais no plano internacional. O encontro com a diversidade e a possibilidade de usar e dar voz às formas de expressão das heranças locais constituem valores que asseguram a criação da inovação necessária para a salvaguarda dos bens culturais.

A língua portuguesa em África, por exemplo, embora seja uma das línguas com maior número de falantes no continente, não se constitui como uma língua de trabalho na maioria das suas organizações internacionais. No caso do AFRICOM, por exemplo, essa situação traduz-se numa ausência das questões e problemas dos países lusófonos nos seus debates. Uma invisibilidade que se vai acentuando, permitindo que inúmeras e ricas experiências não sejam partilhadas

Para além do caso dos países africanos, existem noutros continentes, nas Américas e na Ásia países e comunidades que usam o português como língua de comunicação. Em muitas destas comunidades os museus constituem-se como lugares de memória dessa comunidade, espaço duma herança partilhada. O VI encontro de Museus e Comunidades de países de expressão portuguesa que se realizou em Lisboa em 2011, entre muitas outras questões, permitiu reconhecer a riqueza desta diversidade e chamar a atenção para a necessidade de que essa plataforma se mantenha como espaço de encontro.

Assumimos esse desafio de pensar e integrar o lugar de onde se fala como centro da partilha do trabalho dos profissionais de museus. Tomamos por empréstimo, à conhecida revista francesa, o conceito de Lusotopia, como uma proposta de trabalho neste triénio para aumentar a visibilidade do português nas organizações internacionais e incrementar o seu uso como língua de trabalho entre profissionais de museus.

O uso da língua é um vetor de intervenção patrimonial que tem sido esquecido, apesar de ser considerado um vetor de intervenção estratégica na afirmação de Portugal no mundo. Temos consciência de que se trata duma tarefa complexa onde se cruzam múltiplos atores com lógicas diferenciadas.

Articular os profissionais de museus numa rede de conhecimento através duma plataforma que permita debater problemas da museologia e divulgar processos museológico tem sido apontada como uma possível solução.

Para concretizar esse desígnio é todavia necessário agregar as vontades dos profissionais e usar com eficiência os recursos disponíveis. Será também necessário alargar as parcerias, nacionais e internacionais com outras instituições no domínio da museologia e do património.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s