O Império da Visão. Fotografia no Contexto Colonial português (1860-1960)

imperiodavisao

De Filipa Lowndes Vicente investigadora do ICS foi hoje lançado o livro O Império da Visão: a fotografia no contexto colonial.(1860-1960) com edição das Edições 70.

Da apresentação retiramos “Ao longo da segunda metade do século XIX, a fotografia surgiu como um instrumento central na definição de identidades nacionais, coloniais e individuais, e como nova forma de conhecimento e de comunicação. Entre os anos 1850 e os anos 1950, a fotografia foi mesmo o principal modo de tornar o mundo visível. Esta hegemonia da fotografia foi contemporânea da hegemonia do colonialismo da época, coincidência temporal que se reflectiu na estreita relação entre colonialismo e fotografia: nos modos como contribui para uma cultura colonial, por um lado, e, por outro, na forma como se tornou um dos objectos históricos daqueles espaços e lugares onde os vestígios materiais, visuais e escritos da experiência colonial portuguesa acabaram as suas viagens – os arquivos privados e públicos dos países que, no passado, foram metrópoles ou colónias.
Hoje, os estudos sobre imperialismo reconhecem como, a par da documentação escrita, as imagens são determinantes para se compreender e estudar os impérios. Nos diferentes cruzamentos entre cultura visual e império, a fotografia ocupou um lugar central: como instrumento inseparável dos vários saberes científicos que usavam as colónias como laboratório; ao serviço da propaganda política do poder colonial; ou nos modos como foi apropriada pelos sujeitos colonizados, enquanto forma de resistência ou mesmo no forjar de identidades protonacionalistas; nos seus usos pessoais e íntimos. As potencialidades de reprodução das tecnologias fotográficas multiplicaram os seus usos e circulação. Em exposições coloniais, folhetos e postais, a ilustrar jornais, livros médicos, militares ou antropológicos.
Com a participação de vários investigadores de diversas áreas e interesses, este livro constitui um contributo pioneiro e enriquecedor para o estudo da fotografia em contexto colonial.”

Com apresentação de Isabel Castro Henriques, estavam lá todos os africanistas da urbe. Bem falantes, o livro desta jovem investigadora parece enveredar por caminhos inovadores, recolhendo e trabalhando sobre arquivos fotográficos numa perspectiva crítica.

O uso da fotografia como documento da história tem vindo ser crescentemente usado como recurso de análise e posterior publicação. A autora, coordenadora duma vasta equipa parece pessoa preparada. Nascida em Lisboa em 1972, “ é desde 2009 Investigadora Auxiliar do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Doutorada pela Universidade de Londres em 2000 (Department of Historical and Cultural Studies, Goldsmiths College), pós-graduada em História da Arte contemporânea no Goldsmiths College (1995) e licenciada em História e História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1994). A sua tese de doutoramento deu origem ao livro Viagens e Exposições: D. Pedro V na Europa do Século XIX (Lisboa: Gótica, 2003) que obteve o “Prémio Victor de Sá de História Contemporânea” em 2004.

Após o doutoramento, com o apoio de uma bolsa da Fundação Oriente, começou a trabalhar sobre a Índia colonial nos séculos XIX e XX. Entre 2003 e 2009 foi bolseira de pós-doutoramento (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) no Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, no ano lectivo de 2008-2009, no Departamento de Arte e Arqueologia da School of Oriental and African Studies (SOAS) da Universidade de Londres. Entre 1994 e 2009 viveu e trabalhou em Inglaterra, EUA, e Itália.

Do trabalho de investigação realizado após o doutoramento resultaram vários artigos e um livro: Outros Orientalismos: a Índia entre Florença e Bombaim (1860-1900) (Lisboa: ICS, 2009). Iniciaram-se ainda dois projectos-livros: A Índia do Lado: histórias cruzadas entre o colonialismo britânico e português na Índia da segunda metade do século XIX e A Arte sem História: mulheres artistas (séculos XVI-XX).

Organizou e leccionou cursos sobre os seguintes temas: “De musas a artistas: as mulheres e a arte” (Museu de Serralves, Porto); “História das colecções, museus e exposições” (Mestrado em Património e Museologia da Universidade Católica de Lisboa); “Antropologia e cultura visual” (Mestrado em Patrimónios e Identidades do ISCTE, Universidade de Lisboa).

Através do seu principal projecto de investigação no ICS – Goa em Exposição: Exposições, Imagens e Identidades (1850-1950) – pretende analisar a produção de conhecimento em contexto colonial, a circulação de pessoas e de objectos num espaço globalizado sobretudo na segunda metade do século XIX, e as formas de construção do passado e do presente através de museus, arquivos, bibliotecas, revistas, fotografia, e da escrita histórica, arqueológica ou antropológica.

A sua abordagem é histórica mas os seus temas de investigação cruzam-se com a antropologia ou a cultura visual: a história da produção de conhecimento, sobretudo no século XIX; cultura visual e colonialismo; história das colecções, exposições e museus em contexto colonial; viagens de pessoas e de objectos; história da fotografia; culturas do nascimento; práticas educativas; estudos de género.” Retirado da pagina pessoal do ICS.

Pois tudo parece bem quando está bem. O meu incomodo é mais uma vez o lugar de locução. Falar do Império a partir do império que já não é. Não basta hoje falar de pós-colonial e olhar para os territórios como parcelas lusofona sem uma crítica dessa unidade. Na academia ainda se usa essa unidade de análise. Convém contudo não esquecer que, constituindo a fotografia uma ilustração da cartografia do espaço do outro, ele também nos fala do outro. Falar o outro é um local de locução. Um lugar que já não é pós-colonial.

O resto virá depois de ler o livro que não comprei.