A arte em Moçambique: Entre a construção da Nação e o mundo sem fronteiras

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Este livro da museóloga moçambicana Alda Costa intitulado “A Arte em Moçambique: entre a construção da nação e o mundo sem fronteiras : 1932 -20014” editado em 2013 pela editorial Verbo com a chancela da Babel, constitui a tese de doutoramento da autora, apresentada à Faculdade de Letras de Lisboa, em 2005. Em boa hora foi publicado, pois trata-se duma peça essencial para compreender o processo de formação do Museu de Arte de Maputo, que abriu ao público em maio de 1989.

A história do Museu Nacional de Arte que este livro documenta, apresenta uma relevante abordagem para compreender a problemática da construção da ideia da moçambicanidade. De algum modo a criação deste museu, nos anos oitenta corporiza os diferentes debates que de deram após a independência sobre aquilo a que poderemos considerar uma “narrativa sobre a arte nacional em Moçambique”.

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Museu de Arte em Maputo: fotografia do autor, 2012

Instalado num edifício num  zona central da cidade de Maputo Avenida, nas antigas instalações do Instituto Goeanao, da “Associação Indo-portuguesa”, um construção datada da década de 50 adaptado para este museu  com o objetivo de nele incluir a coleção de arte que vinha sendo reunida. Trata-se dum edifício rodeado por um jardim, onde sem ligação às atividades do museus, se encontra instalado alguns atelier de artistas macondes que trabalham esculturas em madeira, um antigo projeto da ONU para residencias de artistas.

Alda Costa dá conta de debates e movimentos que após a independência dão origem ao processo de colecionar objetos relevantes  para ilustrar uma narrativa estética que corporiza a ideia de moçambicanidade. Estética criada por moçambicanos.

O livro inicia-se com o debate sobre o objecto artístico e o conceito de exposição permanente. Prossegue a sua discussão sobre genealogia de alguns conceitos que marcam a problemática da história da arte africana. A questão da “arte primitiva”, a discussão sobre “arte/artesanato”, a questão da autenticidade do objecto artístico, a questão do valor do objeto artístico e as suas relações com o mercado, e finalmente discute a questão sobre arte moderna versus arte contemporânea.

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Luto de Mankel (1988). Pintura do MusArte – Maputo . Foto do autor 2012

Com esse campo teórico delimtiado, parte para uma viagem aos movimento estéticos da velha cidade colonial. Fala-nos dos movimento do Núcleo de Arte de Lourenço Marques, o modo como o Colonialismo se insinuou no movimento artístico e as questões da discussão sobre a identidade artística e as diversas formas de hibridação que se processam na cidade. Fala ainda da questão da emergência da africanidade na arte e da emergência do diversos movimento estéticos que chegam ao processo da independência.

A independência em 1975 e os anos que se lhe seguiram inauguram a narrativa sobre a questão da nova identidade nacional. O que é incluído e o que deverá ser rejeitado. É nesse contexto que a discussão sobre que tipo de museu se vai promover se irá situar. entre um museu de artesanato popular ou um museu de arte. A informação que aqui se apresenta é muito relevante, proveniente dum aturado trabalho de recolha de informação, mas igualmente duma intensa participação nos processos.

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Xibalo de Macucule (1976). MusArte – Maputo – foto do autor, 2012

Durante todo o processo de escrita presente-se que a observação é atenta e cuidada. Aqui e ali sente-se que é também uma experiência A constituição do que é relatada. Museu de  Arte culmina e concretiza um processo de formação duma narrativa identitária. Um processo que continua  com a procura de outros diálogos na busca da contemporaneidade. Neste livro seguimos a discussão sobre a arte em Moçambique. sobre o que foi acontecendo na cidade, o que o museu foi captando e do que foi acontecendo à margem do museu. Fala-nos das transformações dos pontos de encontros, das escolas que se formaram, das influencias que foram surgindo. Fala-nos de figuras relevantes, de Malagatana, Bertina Lopes, Alberto Chissano Macuculo, Chichorro, Matias Ntundo Naguib, Samate.

Trata-se dum livro que reúne informação relevante para entender o processo de internacionalização da arte em Moçambique. uma autora, também ele própria colecionadora exigente que permite múltiplas conexões como ficou demonstrado na exposição que fez em Maputo em Maio de 2014 e no pequeno núcleo de arte que reuniu na galeria de arte da Universidade Eduardo Mondlane.

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