Vitor Oliveira Jorge Sobre o ambíguo estatuto do conceito de “passado”

Vitor Oliveira Jorge, publicou em Academia o texto escrito a 24 de janeiro, dedicado a uma pessoa que lhe é querida.

Pela sua conclusão, que nos remete para uma Poética da Intersubjetividade, aqui republicamos.

Estamos constantemente a falar de “passado”, por oposição, decerto, ao presente e ao futuro, adentro de uma concepção linear do tempo de que estamos impregnados.

Mas “passado” é um conceito altamente ambíguo, ou, se quisermos, sujeito a discussão.

Por um lado, designa algo que já aconteceu, que desapareceu, que não está aqui e agora: ou seja, um “troço” de tempo mais ou menos longo (por vezes infinitamente longo, quando falamos ao nível da história do planeta, por exemplo), uma realidade cronológica.

Outras vezes, por outro lado, “passado” está conotado com uma construção da memória, ou, quando baseada em documentação, da história (e suas congéneres, como a arqueologia), ou seja, com uma narrativa que, de forma mais ou menos sustentada em termos de prova, de credibilidade, de verosimilhança, se assume como uma interpretação da, ou um discurso sobre, aquela realidade cronológica.

Claro que não só as duas acepções estão extremamente imbrincadas uma na outra, como são difíceis de separar, porque ambas repousam numa concepção linear do tempo e, frequentemente, numa noção positivista (mais ou menos simples, ou refinada) do conhecimento.

Noção linear do tempo,  quer dizer, a de que este é representável como uma linha recta, ou uma seta, que arranca de um início e tende para um fim: é a visão de origem cristã, segundo a qual houve um começo do Mundo (a Criação), como haverá um fim (o Juízo Final). Neste sentido, a visão histórica que se apoia em tal concepção é, até certo ponto, a-histórica, pois que circunscreve o tempo entre duas etapas, tratando depois aliás de o dividir em épocas, períodos, fases, etc.

O tempo, como o espaço, na sua indeterminação, quer dizer, sem estarem balizados por referências (marcas, separações simbólicas, etc.) que os particionem, tornam-se muitas vezes insuportáveis para a consciência humana. Quiçá porque colocam o ser humano perante uma indeterminação, um vazio, um sem-sentido, um vácuo que espelha não só o que poderíamos considerar a imperfeição da própria realidade em si (problema ontológico), o seu carácter de não-Toda, como refletem o sentimento angustiado do próprio vazio que cada sujeito é: o trabalho da vida de cada um de nós consiste, precisamente, em encontrar uma coerência que dê sentido à sua existência, ela própria entendida como um percurso entre passado (com a sua origem), presente e futuro (devido à incontornável consciência da nossa mortalidade).

Só alguns conseguem perceber (vivenciar sofridamente) a arbitrariedade, ou contingência, dessa “identidade”.

Como seres que fazem parte da própria realidade, os seres humanos vivem também na incompletude que caracteriza aquela, ou seja, estamos aqui já ao nível epistemológico de que todo o conhecimento, toda a vivência, são sempre parciais e contingentes. Mas parciais e contingentes não em relação a uma utópica totalidade que já não teria sentido (após a “morte de Deus”), mas em relação a uma fantasia de totalidade que habita muitos seres humanos, e precisamente os conduz com frequência à experiência religiosa (hoje em dia há para “todos os gostos”) ou mesmo mística, isto é, à experiência da alienação total do sentido das suas vidas, que é deposto num Pai securitário (seja ele Deus, o Dinheiro – como acontece no capitalismo, que Benjamin acertadamente considerava uma religião – ou ainda em valores comunitários como a Família, o Partido, a Ciência, ou ainda afectivos como o Amor, a Felicidade, a Liberdade, a Igualdade, etc. Quando não em objetivos puramente hedonistas, aditivos, como o consumo, e em particular a pornografia, a droga, o sexo como fim em si, etc.).

A noção positivista de conhecimento tem muitos matizes, mas basicamente assenta na ideia de que a distância entre sujeito e objecto, entre observador e realidade observada (com ou sem a intermediação de máquinas ou mais ou menos complexas tecnologias) é capaz de criar uma representação fiel de uma realidade independente dos sujeitos: para alguns, em última análise, ela está na abstração da matemática, elevada à categoria de “chave” da realidade. Mas esta concepção impregna toda a atitude, ou pulsão, científica. Sob a sua forma mais ingénua, acredita-se que é possível ao observador (ou equipa de pesquisa) libertar-se dos seus preconceitos (quer dizer, da sua circunstância de ser contingente mergulhado na particularidade de um tempo/espaço concretos) e, através de protocolos e de instrumentos de mediação, atingir “a própria realidade em si”, ou seja, uma representação fidedigna do mundo (pelo menos enquanto não é substituída por outra mais refinada, versão mais sofisticada, mas, apesar de tudo, versão que conserva a mesma crença). É aquilo a que alguns chamam “objetividade”, sem verem que a objetividade, muito louvável e desejável, é também um desejo e uma prática inseridos no universo simbólico humano. Nenhum Deus nos outorgou ou outorgará o dom da objetividade confundida com o acesso à Verdade.

Digamos que a modernidade é precisamente a experiência de perda dessa Verdade, ou transcendência, sendo o chamado idealismo alemão uma fase muito importante do estrebuchar dessa velha procura humana. É muito importante ter em conta as novas leituras de Hegel que se têm apresentado, e que Zizek comenta (Catherine Malabou entre muitos outros), e que nos dão de Hegel uma visão completamente oposta à tradicional.

A maior dificuldade para o ser humano – apesar das portas que a psicanálise de Freud abriu, e que continuam hoje fundamentalmente no lacanianismo e nas visões dele derivadas, como a de Slavoj Zizek  – parece ser a de perceber a radical importância da subjetividade, quer dizer, a irredutível condição particular de cada um de nós, como pessoa. E, ao mesmo tempo, a noção de que não tem sentido pensar numa transcendência inalcançável, ou realidade numenal, como Kant propôs, distinta da realidade fenomenal que nos seria acessível: essa dicotomia metafísica é descartada por um materialismo que se baseia na imanência, na aceitação da nossa condição de seres mergulhados numa realidade simbólica.

Tal realidade simbólica (o que nos permite fazer sentido como humanos) estrutura-se no uso da linguagem, na capacidade de construção da memória, do consciência de si, por oposição ao outro, e na assunção de outros planos de estruturação da nossa vida psíquica que são o Imaginário e o Real. De todos, o mais importante, indefinível, e que serve como que de embraiagem dos outros dois é o Real, ou seja, algo de insimbolizável, algo que não existe em si, mas em última análise estrutura, por assim dizer, o enigma da nossa existência.  Não se trata de uma realidade inefável: trata-se de um conceito operatório básico adentro da tríade borromeana Imaginário-Simbólico-Real, que é ítuil para pensarmos estas e outras questões.

A condição humana é, obviamente, a da historicidade, ou seja, a de que a nossa realidade se percepciona e se vive no tempo, e portanto nós necessitamos de histórias (de “estórias” – é toda a diferença entre “history” e “story” em inglês).  Aliás, desde miúdos que a realidade nos é estruturada pelos mais velhos em parte através de “estórias”, porque nos fascina o desenrolar dos acontecimentos, a sua imprevisibilidade, e, quando somos pequenos, o seu final com sentido (em geral, feliz…). Todavia, depois disso crescemos, inevitavelmente…

De facto, o tempo humano, vivido, não é realmente o tempo linear com que normalmente contamos e estudamos a história (como disciplina das ciências sociais e humanas que nos apresenta a sequência de acontecimentos por períodos); digamos que cada momento, essa abstração, ou cada ato de memória, ou de rememoração, correspondem sempre a uma colisão de tempos, ou a uma destemporalização, se quisermos.  Essa colisão é evidente nos momentos em que por assim dizer nos aproximamos mais do tal “Real”, ou seja, nos momentos de amor, de revolução, de criação artística, etc.

Esses momentos “kairológicos” não são cronológicos, não se estruturam rigorosamente segundo um antes e um depois, segundo uma causalidade linear, mas são momentos em que as representações simbólicas convencionais se desestruturam e permitem sensações de “verdade”, de algo que os religiosos e os místicos experimentariam ou conceptualizariam como manifestações teofânicas, provindas de uma realidade transcendente concebida/imagina por eles.

Para um materialista, o fundamental é tentar construir uma ideologia de emancipação de todas as utopias que têm obstaculizado a concretização de uma vida feliz, tendencialmente, para todos os seres humanos. Essa é pelo menos uma utopia, ou “causa perdida”, como lhe chama Zizek, que para mim faz sentido. Esse materialismo tem se contar com uma noção de subjetividade radical do homem, tem de partir de uma ontologia materialista da subjetividade.

A proposta extremamente sofisticada e inteligente que faz Zizek, quer sobre o conceito de ideologia, quer sobre a causalidade histórica (mostrando que Hegel pode ser relido como sendo muito menos teleológico do que o próprio Marx – autor sempre fundamental, está claro – e, portanto, muito mais interessante para a construção de uma visão da história que nos liberte de quaisquer finalismos) interessa-me sobremaneira.

Se pensarmos que cada presente reestrutura o passado, quer dizer, que os efeitos criam retrospectivamente as próprias causas que lhes “deram origem” segundo a narrativa linear, percebemos que é possível construir uma visão da história não linear nem teleológica, fugindo se possível às armadilhas do historicismo.

Nesse sentido, o passado como tal (ou cada um dos próprios períodos em que o dividimos) nunca existe nem existiu, ele está em permanente construção, não sendo um bloco que tempo que já passou, ou aquilo que os historiadores às vezes chamam “o passado efetivamente acontecido”.

Nós somos de facto responsáveis, hoje, por esse passado, não como uma realidade acontecida, mas como uma realidade que colide connosco, que está a acontecer. Não se trata portanto aqui de um relativismo pós-moderno em que qualquer narrativa sobre o que terá acontecido vale o mesmo que outra qualquer (são por demais evidentes os perigos de tal concepção), mas o contrário.

Ou seja, há um engajamento ativo necessariamente em qualquer rememoração, e portanto em qualquer discussão e construção do chamado passado. Nós estamos neste momento a construir esse “passado”, o que significa assumir a atitude contundente, ou luta política se quisermos, inerente a toda a construção, mesmo a dita científica, ou seja, a de que não há nenhuma interpretação neutra e asséptica e de que a teoria subjacente a qualquer interpretação é tão importante como os chamados factos, ou dados de prova, que são sempre produzidos, ou acontecem, dentro de uma moldura prévia consciente ou inconscientemente ideológica, quer dizer, altamente dependente do plano simbólico.

Esta forma de encarar a historicidade humana implica, obviamente, um horizonte de pensamento que ainda falta construir, horizonte esse que, sendo radicalmente diferente daquele que hoje prepondera nas múltiplas perspectivas em debate, é de facto revolucionário. Nesse sentido, nunca poderá construir-se em isolamento teórico, mas em relação com a própria luta concreta de emancipação humana, ou seja, contra o domínio dos poderosos que controlam a finança e de um modo geral as mafias internacionais de forma cada vez mais total, apoiados na informática e nas intenções ideológicas totalitárias da chamada “inteligência artificial”, entre outros meios.

Se esta perspectiva radical pareceria descabida, ou mesmo histérica, há uns anos, hoje já assim não será. O capitalismo atinge uma fase de “desvelamento da máscara”, isto é, atua já abertamente como uma mafia cínica, quer ao nível internacional quer ao nível de governos de países (de modos obviamente muito diversos), penetrando toda a realidade e tornando-se visível.

Perante a monstruosidade de tal totalitarismo, muitas vezes mascarado sob a égide da palavra mágica “democracia” (entre outras) a reação da maioria das pessoas (que ainda poderia ter reação) é a de medo, ou seja, fecham-se como ouriços caixeiros dentro de si, da sua família, do seu grupo de vizinhança, dos amigos, das suas rotinas profissionais (os que ainda têm um emprego), dentro de um individualismo que, em muitos casos, roça a loucura, e faz até as manchetes dos jornais e das revistas de sensação.

A televisão ocupa o espaço público, ou com telenovelas, ou com notícias de espectacularização de superficialidades, tendo além disso um ou outro programa (debates, atualidades artísticas de qualidade) para entreter as “minorias intelectuais”, sendo óbvio que toda essa informação, como qualquer informação, é uma mercadoria como outra qualquer. A mercantilização do mundo á absoluta, do conhecimento e ensino à saúde e à justiça, como é do conhecimento geral. Nada está fora do mercado para a prática/ideologia neoliberal: o mercado (o empreendedorismo) é a natureza, o normal funcionamento das coisas; e o aparelho de Estado serve sobretudo, cada vez mais, como um aparelho de vigilância, controlo e repressão, para que o mercado funcione livremente. Desde pessoas como a Sra Tatcher na Grã-Bretanha que esta nova fase se implantou, minando pouco a pouco as componentes do “Estado social” que o capitalismo construiu a seguir à II Guerra Mundial, e que culminou no crédito desenfreado que levou à necessidade de correção do sistema. Ou seja, a uma “crise” que consiste afinal na transferência do dinheiro de muitos cidadãos para a finança internacional por forma a compensar esta mesma dos próprios desvarios que introduziu no sistema, como temos observado.

A “crise”, no sentido de algo que dói, é apenas para a maioria das pessoas; para uma minoria internacional que concentra a riqueza, é a nova forma de organização-acumulação do Capital. De forma completamente escandalosa e aberta. Até quando?

Aqueles que, não sendo elementos de qualquer mafia, pretendem ver claro na questão fundamental do que é a história, a memória, do que são as indústrias do património (o próprio incorpóreo ou imaterial se tornou numa indústria e num património, ou seja, num valor), do que significa hoje a informação e o conhecimento,  de como se faz e desfaz o laço social, etc., têm apesar de tudo bastantes elementos ao seu dispor. Mas esses elementos exigem tempo, dinheiro, reflexão. Ou seja, há muita documentação para pensar, mas não há tempo para a triar e para a incorporar criticamente.

Tiram-nos com uma mão o que nos dão com a outra; mas a muitos, à maior parte, já não dão nada.

Dou a concluir este nota o exemplo de uma paisagem marítima: todos nós já sonhámos em estar numa praia, ouvindo o ruído das ondas, contemplando a extensão azul do mar e do céu, em perfeita tranquilidade, paz, e num silêncio que nos permita precisamente “ouvir o silêncio”. Ora, sabemos como esse espaço-limite, esse espaço de limpeza temporária de tudo o que nos atormenta e que é (entre outros) a praia (mito que começou no século XIX como é sabido) e que a publicidade nos vende como paraíso, ajudada por imagens maravilhosas, não existe de facto na realidade vivida, na realidade comezinha das nossas vidas reais.

Está lá sempre algo a mais, que quebra essa maravilhosa imagem.

Mas, não será ainda esta uma ideologia individualista, a da contemplação e fruição solitária? Todos nós precisamos de momentos de solidão e de reflexão, de intimidade, mas não seria mais interessante pensar o sentido de comunidade, de vivência em comum, de intersubjetividade? Creio que sim. Mas de uma comunidade que nada tem a ver com os grandes concertos, os grandes eventos, os grandes espetáculos, os grandes futebóis, as grandes quantidades de dinheiro. Uma comunidade que não seria um novo mito, mas uma utopia construtiva para fazer coisas com os outros, coisas que mudassem a própria realidade. E o nosso passado.

Comboio Lisboa-Porto, 24 de Janeiro de 2015

Para os meus amigos, para a Flor

Vítor Oliveira Jorge

Simplesmente claro

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A agenda pós- 2015 e a teoria do Desenvolvimento IV

Em 2000 a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou e definiu oito objetivos de desenvolvimento do milénio a atingir em 2015. Com esse compromisso procurou alcançar um conjunto de ambiciosas metas, objetivadas através de indicadores quantitativos verificados num horizonte temporal de 15 anos. Anualmente os resultados atingidos são reportados à Assembleia Geral. Neste ano de 2015, é já claro o grau de aquisição destes objetivos, e discute-se de que forma é que se dará continuidade a esse compromisso.

Neste artigo abordamos os contextos de formação destes objetivos no âmbito da Teoria do Desenvolvimento a partir da relação da compatibilização entre os fins, aqui apresentados como “os objetivos”, com os meios alocados pelos diferentes atores envolvidos. A análise dos meios leva-nos a mapear os processos implementados no campo da Ajuda ao Desenvolvimento. A partir dessa análise interrogamos a eficácia e a eficiência da ajuda ao desenvolvimento e a adequação do conceito de Desenvolvimento na discussão atual sobre os Objetivos de Desenvolvimento sustentável.

Pós 2015 e a Teoria do Desenvolvimento III

Sobre a necessário conciliação entre os objetivos de longo prazo com o desejo do imediato

Como Conciliar a necessidade de obter mudanças rápidas no desenvolvimento da economia, com as mudanças sociais que ocorrem no tempo lenta.

A mudança implica uma transformação estrutural que ocorrem em diferentes dimensões temporais. Como se concilia as transformações no curto prazo no longo prazo

A compatibilização entre o desejo e a realidade, ou a arte de transforma desejos em realidade.

A questão da errância como percurso sem destino (o bêbado).

A alegoria do posta. O poste que ilumina a errância. Todos os postes estão em torno do bares

Qual é a formulação do sucesso. A taxa de variação é formulada em torno de si e independente das outra. A escolha dum indicador é ideológico e não liga o curto prazo e o longo prazo.

Na análise liberal o curto prazo subpõe-se ao longo prazo

O pós-2015 – Teoria do Desenvolvimento I

O que é que vai acontecer  após 2015 com os compromissos que se estabelecerem em 2000 quando se aprovaram os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM).

Mais à frente falaremos sobre esta questão. Agora importa formular algumas questões sobre de que forma esse compromisso pode prosseguir, a partir das suas avaliações, (também falaremos disso noutro artigo nesta série) para se alcançarem ou reformularem esses desígnios.

Será talvez mais prudente pensar em reforço das estratégias para alcançar os objetivos em áreas de menor eficácia, do que reformular. Reformular, implicaria um longo e complexo processo de negociação, num ambiente internacional turbulento.

Na reformulação há três questões que merecem ser reflectias:

1. a questão da desigualdade.

2. a questão da mudança estrutural

3. a qestão da cultura

 

 

Verde ou maduro

Expressão em uso na Tasca do ti Manel, na gare de Campanhã, na cidade invicta, onde ontem, dia 23, fui durante a manhã para assistir à Conferencia Internacional Uma nova Narrativa para a Europa.

WIN_20150123_105057Já não haverá muitos lugares onde se possa escolher entre duas qualidades de vinho, para além do velho branco ou tinto.

As escolhas da Europa ente o verde ou maduro. Falaremos disso nos próximos artigos.

Coimbra B e o paradoxo tuga

 

Viajo frequentemente a Coimbra. Por isso fico preplexo pela periferia desta estação – uma estação que se chama Coimbra B numa grande cidade. Uma estação onde param todos os comboios que vão de norte a sul e de lisboa para aeuropa. B um paradoxo. Uma estaçãoonde se atravessa a pé. Pare escute e olhe. Caramba. Numa estação internacional …

Lembro-me que em 1964, ainda com três anos, de chorar de medo em Coimbra. Hoje lembrei-me porque. A plataforma é estreita demais. Tem a dimensão dum apeadeiro.

Por isso na altura eu chorava de medo. vindos de Lisboa, parava-se em Coimbra para esperar o comboio para a Beira. Comboios a vapor. Cavalos de ferro a rugir vapor e buzinadelas quando passavam na linha. Lembro-me de esconder a cabeça no colo da minha mãe. Com medo do barulho ensurcedor.coimbraB2

Um enigma. O enigma Português tem vindo a ser trabalhado por muitas gerações de intelectuais. Entender o porquê da estabilidade das fronteiras durante novecentos anos, numa Europa envolvida em profundas convulsões não será tarefe fácil.

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Ao certo sabemos que Coimbra, sobre o rio Mondego é uma urbe que articula o Baixo Mondego, mais pantanoso e ligado ao mar, com as serranias do Estrela e Caramulo. Através de Coimbra  fazia-se também a ligação com as terras do sul, do Arunca (Pombal) e do Liz, a sul e do Vouga a norte. Terá sido a sua posição estratégica que ao longo dos tempos lhe terá vindo a conferir uma predominância sobre os demais territórios.

Sabemos, pelas suas ruínas que aí terá existido uma urbe pujante. Na idade média era um condado, fronteira da guerra entre cristãos e mouros. Uma fronteira que lhe terá conferido a sua identidade Moçarabe, um termo que hoje se usará pouco nas terras lusas, mas ilustra uma certa continuidade cultural nas terras do centro e da estremadura.

A sua escolha para centro universitário, pelo rei Diniz em 1308, aonde chega transferida de Lisboa, então com o nome de Estudos Gerais, criada pela carta “Scientiae thesaurus mirabilis”, em 1290, marcará a sua condição de uma das mais antigas universidades europeias. Dela sairão, para todo o país e para todo o império, os lentes versados em leis, na botânicas, na medicina, na retórica e na envangelização. Entre 1537 e 1910 é o único centro universitário no país, condição que ainda a marca. O tradicional castelo das cidades medievais é hoje ocupado pela Universidade.

O estranho de tudo isso, é que sendo uma articulação entre o norte e o sul do país, em teoria uma das suas maias importantes cidades, seja, do ponto de vista ferroviário, uma estação marginal. Ponto obrigatório de paragem de todos os comboios, a estação movimenta, desde à décadas, depois do afluxo dos milhões de Bruxelas, coimbra é uma estação B. Onde se atravessa alinha. Atento ao Pare, escute e olhe. Uma aflição !

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Olhar o Indico a partir do Katembe

A sul da cidade de Maputo, do outro lado do rio Tembe aberta ao Oceano Indico o Katembe é uma zona urbana em acentuada transformação. Costa Neto, músico moçambicano canta história de Mandjolo , uma aldeia sobranceira ao Índico, feita de movimentos de diaspora. Uma história micro feita entre as culturas tradicionais dos aguerridos pastores da África Austral e os movimentos de urbanização, primeiro colonial, que traz comunidades indianas, e de seguida pós-colonial, que favoreceu o crescimento demográfico e urbano e agora à beira da globalização. Este artigo procura olhar os movimentos de transição do espaço a partir das narrativas biográficas dos seus habitantes, confrontados com a sua percepção da mudança.

A construção da ponte sobre o rio Maputo e estrada para a Ponta do Ouro está a induzir fortes pressões num espaço, propiciando a especulação imobiliária. De periferia urbana o Catembe entra no processo de globalização através duma nova centralidade urbana que inevitavelmente induz transformações no tecido social. Este artigo procura entender, a partir das narrativas biográfica, o modo como os habitantes locais percepcionam a mudança e entender os processos de resiliência para enfrentar os conflitos que decorrem da transformação do uso do espaço, da alteração da propriedade e da mudança na sua composição social e redes de relacionamento