Catembe de Faria de Almeida

Filmado em 1964, Catembe, de Faria de Almeida, mostrava-nos o outro lado da propaganda do regime: a vida em Lourenço Marques. Cortado pela censura em metade da sua duração, foi  exibido em jnaeiro de 2013 Cinemateca de Lisboa.

Com 11 minutos recuperados ao material que tinha sido censurado. Aqui o filme

Catembe era o outro lado, literalmente. A outra margem da então Lourenço Marques, hoje Maputo, capital moçambicana. Catembe era o outro lado, metaforicamente. Vila piscatória cujo quotidiano não correspondia à imagem idílica pintada pela propaganda do Estado Novo. Catembe, de Faria de Almeida, a sua primeira e última longa-metragem, foi o filme mais retalhado pela censura na história do cinema português.

Filmado em 1964, mostrava o outro lado, o “lado mais genuíno da vida local”. Retalhado, sobreviveu. Dos seus 87 minutos originais, sobraram 45. Vamos vê-los esta noite, às 19h, na Cinemateca de Lisboa. Numa sessão que conta com a presença do realizador, teremos também oportunidade de ver um pouco do que a censura não queria que víssemos. Onze minutos de cenas cortadas, recuperados pelo realizador. O lado escondido.

Manuel Faria de Almeida, nascido em Lourenço Marques em 1934, estudara em Inglaterra na London School Of Film Technique, estagiara na Cinemateca Francesa, contactara com o Cinema Directo a despontar em Inglaterra, entusiasmara-se com Chris Marker, Alain Resnais e com o Cléo das 5 às 7 de Agnés Varda. Quando avançou para Catembe, já tinha ganho o primeiro prémio do Festival Cinestud de Amesterdão com Streets of Early Sorrow (Os Caminhos para a Angústia), realizado no âmbito do curso em Inglaterra e inspirado num dos crimes do apartheid sul-africano, o massacre de Sharpeville. Nunca exibido em Portugal, mas que a investigadora Maria do Carmo Piçarra, estudiosa do cinema português feito durante o Estado Novo, apresentou em Londres em 2012, perante o entusiasmo de uma plateia em que se encontravam, por exemplo, os curadores da Tate Modern, esta curta é por si reveladora, afirma a investigadora, do talento de Faria de Almeida.Catembe, porém, seria outra coisa.

Documentário e ficção, a filmagem de uma realidade vivida mas não preservada em película. Começa em Lisboa, com Faria de Almeida perguntando na rua sobre Lourenço Marques. Recebe as respostas de quem só conhecia a cidade através da propaganda do regime: “É na selva e há leões a andar na rua”. Depois, acompanha a vida em Lourenço Marques em cada um dos dias de uma semana.

António da Cunha Telles, o seu produtor, recordando as peripécias que sofreu, chama-lhe “um filme que foi conquistado”. José Manuel Costa, vice-director da Cinemateca, recordando que Faria de Almeida fez uma “carreira paralela” a realizadores do cinema novo português como Fernando Lopes, com quem conviveu na escola londrina, aponta que será “importante uma atenção redobrada ao Catembe e um estudo do seu guião original ilustrado [que o realizador depositou há muito na Cinemateca] que permita perceber melhor as vertentes da renovação do cinema português num momento decisivo, o do seu renascimento”.

António da Cunha Telles confessa nunca ter percebido por que é que a censura bloqueou tanto Catembe. Lembra-se de um filme “com muita candura e uma certa ingenuidade”, em que Faria de Almeida “concebe Lourenço Marques como ponto de partida para a união de todas as pessoas que habitavam Moçambique”: “Mesmo tendo em conta a sensibilidade das entidades oficiais da altura, nada fazia prever que o filme viesse a ser proibido”. Mas foi, como sabemos. Primeiro cortado a 45 minutos e depois censurado definitivamente, tornar-se-ia o momento decisivo da carreira de Faria de Almeida. “Tem a consequência brutal de ter impedido a emergência de um realizador tecnicamente extraordinário que, a partir dessa experiência, perde a vontade de fazer cinema de ficção e passa ao documentário, depois à televisão, depois a funções mais administrativas”.

Mas o que preocupava tanto a censura? Na mesma época, foram também proibidos Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras, de Joaquim Lopes Barbosa, ou A Invenção do Amor, de António Campos. Estes eram, porém, filmes declaradamente anticoloniais. Catembe era um testemunho social. E foi isso que o tornou perigoso aos olhos do regime. O estudo do guião original mostra que a maior parte das cenas censuradas mostrava a vida local de Maputo: “A população negra, a vida nocturna, os bares”, descreve José Manuel Costa. Tudo isso foi eliminado – e, em parte, agora recuperado nos 11 minutos que a Cinemateca exibirá, ainda em versão videográfica, dado que o seu restauro não está concluído. A realidade, como é norma nos regimes totalitários, não agradava ao Estado Novo.

“Interessavam-lhe os filmes de propaganda subjugados à lógica do desenvolvimento branco, das infra-estruturas e desenvolvimento que os colonos tinham levado a África. O que englobava as populações negras”, aponta José Manuel Costa, “era mostrado sob um ponto de vista folclórico, pretensamente etnográfico”. É daí, diz Maria do Carmo Piçarra, que nasce a ideia do país menos racista e mais simpático para os outros povos. “Catembeé censurado porque apresenta uma visão disruptiva do que o cinema de propaganda propunha. Numa das sequências, quase totalmente censurada, mostra uma mulata, Catembe, apaixonada por um pescador pobre. Mostra [em cena também censurada] a convivência racial nos bares de Maputo, com pretos e brancos dançando uns com os outros. Todo um ambiente que nada tinha a ver com ‘Fado, Fátima e Futebol”.