Inovação e Empreendorismo com o património

Por um daqueles acasos em que a vida é fértil, a propósito de questões sobre a educação dos filhos, procurando concertar vontades do pais e mães para apoiar de forma mais sistemática a escola Pestalozzi, uma escola que procura educar a partir dos próprios sujeitos, encontrei-me com a Catarina Furtado. Catarina e duas amigas teveram uma ideia simples mas ao mesmo tempo brilhante .

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Olharampara os padrões azulejares da cidade de Lisboa com inspiração para a produção textil. Vai daí montaram um pequena empresa a Tiled com o pomposo nome “tiled patterns on textile”, em inglês é claro, a pensar no mercado internacional.

É um exemplo da forma de usar o património e criar inovação. Os belos azulejos de Lisboa a viajarem por esse mundo.

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A Fábrica das Artes do CCB e as questões da Educação nos Museus

Num post anterior e a propósito de Madalena Cabral falamos sobre o processo de formação dos serviços educativos em Portugal. Grosso modo, Madalena Cabral, nos primeiros anos da década de sessenta, no museu de Arte Antiga em Lisboa.

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Em boa hora Catarina Moura elencou a sua contribuição inical, e refletiu sobre a forma como os serviços educativos se desenvolverem em Portugal. foi um percurso de cinquenta anos. Lento e tortuoso. Nele germinaram inúmeros profissionais de museus. Através da Função educativa, muitos museus desenvolveram atividades para os seus publicos.

Vem isto a propósito do Projecto educativo da Fábrica das Artes, instalada no Centro Cultural de Belém. Um dos lugares de referencia da função educativa nos museus. (os outros são a Culturgest, a Fundação Gulbenkian e  Serralves).

O que pudemos retirar desta programação anual. Duas ideias simples.

  • o Projeto Educativo no museu é constituído por uma somatório de atividades (oficinas), mais ou menos integradas  dentro dum tema geral
  • O Projeto Educativo é concretixado por profissionais através de propostas de oficinas, que se integram ou não nesses linha temáticas.

Temas para desenvolver mais à frente

Os serviços educativos em Portugal e Madalena Cabral

Faleceu hoje Madalena Cabral, pioneira dos serviços educativos nos museus portugueses.

Conhecia ainda criança, sem saber quem era, no Museu de Arte Antiga, onde  íamos desenhar peças no tempo da “Lar da Criança”, a minha Escola Primaria, ali para os lados da Calçada de Estrela. as visitas de estudo eram na altura pequenos luxos dos colégios.

Eram tardes de descoberta no museu. Primeiro estranhávamos aquele sítio escuro, de gente séria, sempre a dizer para não corremos e não mexermos nas coisas. Depois, davam-nos uma folhas de papel, uns lápis e pediam-nos que desenhássemos.

Lembro-me de me ter sentado no chão a desenhar uma cadeira. A cadeira do rei do Congo!

E, nós gaiatos perdiamo-nos naquilo. No final faziamos uma exposição dos trabalhos da escola e ficacavamos contentes. Nunca mais deixei de ir aos museus.

Anos mais tarde, já adulto, vivendo às janelas verdes, fazia daquele jardim o meu jardim. aos sábados de manhã, sentava-me na soalheira esplanada a ler e a olhar o Tejo. Na caminho revisitava aquela cadeira do Rei do Congo, desenhando-a mentalmente, sem me aperceber, que continuava a ser aquela criança que procurava fazer com que o traço tivesse uma adesão à realidade percepcionada.

Muitos anos ainda mais tarde, já preocupado com estas coisas da museologia e do lugar da herança africana nos museus, a primeira coisa que me ocorreu foi voltar às janelas verdes e procurar a Cadeira do rei do Congo. Continuava a ser a mesma criança a tentar desenhar.

Escrevi então  “Actualmente o Museu Nacional de Arte Antiga oferece-nos três grandes núcleos museológicos: arte portuguesa que engloba pintura, escultura, pintura luso-flamenga; influência da África e Ásia através de objectos de origem africana, chinesa, arte nanbam e arte indo-portuguesa; e arte estrangeira na qual encontramos pintura europeia do séc. XIV ao XIX, artes ornamentais, ourivesaria e têxteis. Da exposição temporária, Portugal e o Mundo, falaremos a seguir. Os objectos de África reduzem-se à cadeira do Rei do Congo. Há, na abordagem mobiliário do século XVI, uma nítida influência de formas ornamentais mais próximas do mediterrâneo. Todavia o museu não apresenta nenhuma leitura dessa especificidade, preferindo integrar a pintura, as artes decorativas na linha da “integração europeia”, na sua afiliação a uma história de arte como expoente duma civilização, como expressão duma nação. Nessa viagem esquece aquilo que agora procura mostrar com exposições temporárias. Interessante esquecimento” . 

Finalmente, vai para meia dúzia de anos, andava de volta da questão da educação nos museus, lá esbarrei com a Madalena Cabral. A senhora que me desafiou. Já não trabalhava lá mas a memória continuou pelas gerações seguintes. Deixou muitos filhos e filhas nos museus portugueses.

Ao escrever estas palavras é interessante como os fios da memória se vão tecendo, revivendo e reinterpretando os sentidos das coisas primeiras.

Nossas Áfricas Novo site

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Foi lançado recentemente o site “Nossas Áfricas”, criado pelo historiador Pedro Beja Aguiar.  O site tem por objetivo ser um espaço de troca de experiências e aprendizado entre professores, alunos e outros interessados nos temas de História do continente africano, das nações africanas, dos afro-brasileiros e da vasta cultura negra ao redor do mundo. Ele disponibiliza planos de aula e propostas pedagógicas para professores e alunos que desejam pensar suas aulas de formas diferentes, artigos de professores renomados do Brasil e do exterior. A partir deste ano, o “Nossas Áfricas” promete produzir Desafios e Olimpíadas entre colégios no Estado do Rio de Janeiro, sobre História da África e suas relações com a História do Brasil. Se você se interessou e quer saber mais sobre essa interessante e necessária iniciativa, clique aqui e confira.

 

 

Catembe de Faria de Almeida

Filmado em 1964, Catembe, de Faria de Almeida, mostrava-nos o outro lado da propaganda do regime: a vida em Lourenço Marques. Cortado pela censura em metade da sua duração, foi  exibido em jnaeiro de 2013 Cinemateca de Lisboa.

Com 11 minutos recuperados ao material que tinha sido censurado. Aqui o filme

Catembe era o outro lado, literalmente. A outra margem da então Lourenço Marques, hoje Maputo, capital moçambicana. Catembe era o outro lado, metaforicamente. Vila piscatória cujo quotidiano não correspondia à imagem idílica pintada pela propaganda do Estado Novo. Catembe, de Faria de Almeida, a sua primeira e última longa-metragem, foi o filme mais retalhado pela censura na história do cinema português.

Filmado em 1964, mostrava o outro lado, o “lado mais genuíno da vida local”. Retalhado, sobreviveu. Dos seus 87 minutos originais, sobraram 45. Vamos vê-los esta noite, às 19h, na Cinemateca de Lisboa. Numa sessão que conta com a presença do realizador, teremos também oportunidade de ver um pouco do que a censura não queria que víssemos. Onze minutos de cenas cortadas, recuperados pelo realizador. O lado escondido.

Manuel Faria de Almeida, nascido em Lourenço Marques em 1934, estudara em Inglaterra na London School Of Film Technique, estagiara na Cinemateca Francesa, contactara com o Cinema Directo a despontar em Inglaterra, entusiasmara-se com Chris Marker, Alain Resnais e com o Cléo das 5 às 7 de Agnés Varda. Quando avançou para Catembe, já tinha ganho o primeiro prémio do Festival Cinestud de Amesterdão com Streets of Early Sorrow (Os Caminhos para a Angústia), realizado no âmbito do curso em Inglaterra e inspirado num dos crimes do apartheid sul-africano, o massacre de Sharpeville. Nunca exibido em Portugal, mas que a investigadora Maria do Carmo Piçarra, estudiosa do cinema português feito durante o Estado Novo, apresentou em Londres em 2012, perante o entusiasmo de uma plateia em que se encontravam, por exemplo, os curadores da Tate Modern, esta curta é por si reveladora, afirma a investigadora, do talento de Faria de Almeida.Catembe, porém, seria outra coisa.

Documentário e ficção, a filmagem de uma realidade vivida mas não preservada em película. Começa em Lisboa, com Faria de Almeida perguntando na rua sobre Lourenço Marques. Recebe as respostas de quem só conhecia a cidade através da propaganda do regime: “É na selva e há leões a andar na rua”. Depois, acompanha a vida em Lourenço Marques em cada um dos dias de uma semana.

António da Cunha Telles, o seu produtor, recordando as peripécias que sofreu, chama-lhe “um filme que foi conquistado”. José Manuel Costa, vice-director da Cinemateca, recordando que Faria de Almeida fez uma “carreira paralela” a realizadores do cinema novo português como Fernando Lopes, com quem conviveu na escola londrina, aponta que será “importante uma atenção redobrada ao Catembe e um estudo do seu guião original ilustrado [que o realizador depositou há muito na Cinemateca] que permita perceber melhor as vertentes da renovação do cinema português num momento decisivo, o do seu renascimento”.

António da Cunha Telles confessa nunca ter percebido por que é que a censura bloqueou tanto Catembe. Lembra-se de um filme “com muita candura e uma certa ingenuidade”, em que Faria de Almeida “concebe Lourenço Marques como ponto de partida para a união de todas as pessoas que habitavam Moçambique”: “Mesmo tendo em conta a sensibilidade das entidades oficiais da altura, nada fazia prever que o filme viesse a ser proibido”. Mas foi, como sabemos. Primeiro cortado a 45 minutos e depois censurado definitivamente, tornar-se-ia o momento decisivo da carreira de Faria de Almeida. “Tem a consequência brutal de ter impedido a emergência de um realizador tecnicamente extraordinário que, a partir dessa experiência, perde a vontade de fazer cinema de ficção e passa ao documentário, depois à televisão, depois a funções mais administrativas”.

Mas o que preocupava tanto a censura? Na mesma época, foram também proibidos Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras, de Joaquim Lopes Barbosa, ou A Invenção do Amor, de António Campos. Estes eram, porém, filmes declaradamente anticoloniais. Catembe era um testemunho social. E foi isso que o tornou perigoso aos olhos do regime. O estudo do guião original mostra que a maior parte das cenas censuradas mostrava a vida local de Maputo: “A população negra, a vida nocturna, os bares”, descreve José Manuel Costa. Tudo isso foi eliminado – e, em parte, agora recuperado nos 11 minutos que a Cinemateca exibirá, ainda em versão videográfica, dado que o seu restauro não está concluído. A realidade, como é norma nos regimes totalitários, não agradava ao Estado Novo.

“Interessavam-lhe os filmes de propaganda subjugados à lógica do desenvolvimento branco, das infra-estruturas e desenvolvimento que os colonos tinham levado a África. O que englobava as populações negras”, aponta José Manuel Costa, “era mostrado sob um ponto de vista folclórico, pretensamente etnográfico”. É daí, diz Maria do Carmo Piçarra, que nasce a ideia do país menos racista e mais simpático para os outros povos. “Catembeé censurado porque apresenta uma visão disruptiva do que o cinema de propaganda propunha. Numa das sequências, quase totalmente censurada, mostra uma mulata, Catembe, apaixonada por um pescador pobre. Mostra [em cena também censurada] a convivência racial nos bares de Maputo, com pretos e brancos dançando uns com os outros. Todo um ambiente que nada tinha a ver com ‘Fado, Fátima e Futebol”.

Olhar o Indico a partir do Katembe

A sul da cidade de Maputo, do outro lado do rio Tembe aberta ao Oceano Indico o Katembe é uma zona urbana em acentuada transformação. Costa Neto, músico moçambicano canta história de Mandjolo , uma aldeia sobranceira ao Índico, feita de movimentos de diaspora. Uma história micro feita entre as culturas tradicionais dos aguerridos pastores da África Austral e os movimentos de urbanização, primeiro colonial, que traz comunidades indianas, e de seguida pós-colonial, que favoreceu o crescimento demográfico e urbano e agora à beira da globalização. Este artigo procura olhar os movimentos de transição do espaço a partir das narrativas biográficas dos seus habitantes, confrontados com a sua percepção da mudança.

A construção da ponte sobre o rio Maputo e estrada para a Ponta do Ouro está a induzir fortes pressões num espaço, propiciando a especulação imobiliária. De periferia urbana o Catembe entra no processo de globalização através duma nova centralidade urbana que inevitavelmente induz transformações no tecido social. Este artigo procura entender, a partir das narrativas biográfica, o modo como os habitantes locais percepcionam a mudança e entender os processos de resiliência para enfrentar os conflitos que decorrem da transformação do uso do espaço, da alteração da propriedade e da mudança na sua composição social e redes de relacionamento