Fotografia da Moçambique por Alexandre Pomar

Sobre a Exposição de História da Fotografia em Moçambique de Alexandre Pomar

Moçambique, 40 anos – 4 fotógrafos
Moira Forjaz – José Cabral – Luis Basto – Filipe Branquinho

A fotografia em Moçambique, somando os caminhos do fotojornalismo, da documentação e da afirmação artística, constitui uma das dimensões mais reconhecidas da produção e da identidade cultural do país. Para isso contribuiu em especial a figura e a obra de Ricardo Rangel (1924-2009), fotógrafo de imprensa influente desde os anos 60, que se impôs no tempo colonial e exerceu uma eficaz acção formativa depois da independência. Apesar das dificuldade criadas pela longa guerra civil e pela debilidade económica do país, até tempos recentes, Moçambique tem conhecido condições para a prática e a divulgação da fotografia que constituem um caso singular no panorama africano, comprovado por toda uma galeria de autores relevantes e uma assinalável continuidade criativa.

Para apresentar a importância da fotografia moçambicana, optou-se nesta exposição por reunir um conjunto alargado de obras de quatro fotógrafos com lugares destacados e também diferenciados ao longo do tempo, em vez de se procurar reunir uma antologia interessada na enumeração exaustiva dos muitos nomes dessa mesma história. A mostra conta com obras expostas desde 2009 em várias iniciativas e com outras escolhidas para este novo projecto, cuja oportunidade se sublinha na ocasião em que se celebram os 40 anos da independência de Moçambique.

Os quatro autores que se expõem – Moira Forjaz, José Cabral, Luís Basto e Filipe Branquinho – marcam gerações sucessivas de um arco cronológico que vem desde os anos 70 e que se conclui com um dos fotógrafos de uma nova geração que tem ganho atenção internacional, conhecida entre nós pela participação nas exposições do BES Photo e do programa Próximo Futuro da Gulbenkian. Para além do grande colectivo que é a fotografia moçambicana das últimas décadas, genericamente associado ao exemplo de Ricardo Rangel, pretendeu-se sublinhar a crescente autonomia autoral de vários itinerários criativos que, num meio limitado e por vezes adverso (sem mercado local e sem promoção institucional), foram encontrando condições de realização fora da fotografia de imprensa e do fotojornalismo. Em paralelo, Ricardo Rangel é apresentado através da exibição de um filme – Sem Flash, de Bruno Z’Graggen e Angelo Sansone (2012, 56 min.) e quatro vitrines mostram catálogos e livros de diferentes autores.

Moira Forjaz, nascida no Zimbabwe em 1942, é conhecida pelo livro  “Muipiti”, dedicado à mítica Ilha de Moçambique, editado em Lisboa pela Imprensa Nacional em 1983, por ocasião dos programas para a salvaguarda da sua arquitectura histórica que conduziram à inscrição na lista do Património Mundial da UNESCO em 1991. Além de fotógrafa, foi cineasta, galerista (em Lisboa, nos anos 90), depois directora de festivais de música em Portugal e e em Moçambique; em 2015 vai publicar um novo livro de fotografias sobre os primeiros anos do novo país (Mozambique 1975-1875). Nesta exposição apresenta-se uma selecção das provas de época («vintages») de “Muipiti – Ilha de Moçambique”, contando com os originais expostos nos inícios dos anos 80 ou reproduzidos nessa edição. Para além dos testemunhos patrimoniais do que foi a primeira capital moçambicana, é a serena cumplicidade entre a beleza dos cenários e a vida da sua população plural, no cruzamento de origens e de hábitos,  que aí se vislumbra.

José Cabral (n. 1952) é um fotógrafo activo desde a independência, com um trabalho documental e de criação pessoal que teve especial importância na abertura de novos caminhos para as gerações posteriores, distanciando-se do fotojornalismo impulsionado por  Rangel e por Kok Nam antes e depois de 1975. Fotógrafo profissional no Instituto Nacional de Cinema, e integrando a sua equipa fundadora (1975-78), depois foto-repórter e professor no Centro de Formação Fotográfica de Moçambique, bolseiro em Itália e nos Estados Unidos, é um artista de grande cultura visual e literária, que, num país ainda sem mercado para a fotografia independente, afirmou outros horizontes de criação e é também reconhecido como um mestre.
Homenageado na edição de 2006 do festival PhotoFesta de Maputo, Cabral foi acentuando nas suas exposições mais recentes a diferença autoral e estética através de um enfoque em grande parte autobiográfico, às vezes provocadoramente intimista. Apresentam-se obras dessas exposições, «As Linhas da minha Mão» (2006), «Anjos Urbanos», sobre os seus filhos e os filhos dos outros (Lisboa 2009), e «Espelhos Quebrados», auto-retratos de carreira e itinerância (Maputo 2012), numa antologia alargada.

Segue-se Luís Basto (n. 1969), autor com projecção internacional nas grandes exposições «Africa Remix», 2004, e «Snap Judgments – new positions in contemporary african photography», esta organizada por Orkui Enwezor, no ICP – International Center of Photography, Nova Iorque, 2006.
É um fotógrafo de Maputo e do difícil quotidiano da cidade, que retratou no livro “Voyage au Mozambique – Maputo” (Éditions du Garde-Temps, Paris 2005), mas também um notável paisagista. Com ele a mostra faz a transição do preto e branco  para a cor, num último projecto de grande coerência conceptual e formal a que chamou «Espaços iluminados», apresentado em 2013.

Por fim, Filipe Branquinho (n. 1977), um dos elementos da nova geração – em que se destacam também Mauro Pinto e Mário Macilau – que foi mostrada nas edições do BES Photo de 2011 a 2013. Se os anteriores fotógrafos puderam contar com os apoios da cooperação de Itália, França e Suíça, em especial, para potenciar o seu trabalho, o que culminou na digressão por vários países da exposição “Iluminando Vidas – Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana” (Zurique, 2002), os novos fotógrafos já conseguiram aceder por si mesmos ao circuito das galerias e das feiras internacionais.
As fotografias de grande formato das séries «Ocupações», em que os modelos posam para o fotógrafo nos lugares de trabalho ou de residência, são uma marca forte do seu trabalho, actualizando pelas novas vias do retrato a ambição da fotografia documental, numa direcção muito atenta à mudança da sociedade moçambicana e totalmente alheia ao gosto pelo exotismo que marca muita da fotografia feita em África, por visitantes e também por africanos. Com uma nova série de trabalhos intitulada “Paisagens Interiores”, onde as arquitecturas e o seu uso ganham especial importância, Branquinho foi muito recentemente distinguido como um dos cinco vencedores do importante Prémio POPCAP – the piclet.org prize for contemporary African Photography.