Os serviços educativos em Portugal e Madalena Cabral

Faleceu hoje Madalena Cabral, pioneira dos serviços educativos nos museus portugueses.

Conhecia ainda criança, sem saber quem era, no Museu de Arte Antiga, onde  íamos desenhar peças no tempo da “Lar da Criança”, a minha Escola Primaria, ali para os lados da Calçada de Estrela. as visitas de estudo eram na altura pequenos luxos dos colégios.

Eram tardes de descoberta no museu. Primeiro estranhávamos aquele sítio escuro, de gente séria, sempre a dizer para não corremos e não mexermos nas coisas. Depois, davam-nos uma folhas de papel, uns lápis e pediam-nos que desenhássemos.

Lembro-me de me ter sentado no chão a desenhar uma cadeira. A cadeira do rei do Congo!

E, nós gaiatos perdiamo-nos naquilo. No final faziamos uma exposição dos trabalhos da escola e ficacavamos contentes. Nunca mais deixei de ir aos museus.

Anos mais tarde, já adulto, vivendo às janelas verdes, fazia daquele jardim o meu jardim. aos sábados de manhã, sentava-me na soalheira esplanada a ler e a olhar o Tejo. Na caminho revisitava aquela cadeira do Rei do Congo, desenhando-a mentalmente, sem me aperceber, que continuava a ser aquela criança que procurava fazer com que o traço tivesse uma adesão à realidade percepcionada.

Muitos anos ainda mais tarde, já preocupado com estas coisas da museologia e do lugar da herança africana nos museus, a primeira coisa que me ocorreu foi voltar às janelas verdes e procurar a Cadeira do rei do Congo. Continuava a ser a mesma criança a tentar desenhar.

Escrevi então  “Actualmente o Museu Nacional de Arte Antiga oferece-nos três grandes núcleos museológicos: arte portuguesa que engloba pintura, escultura, pintura luso-flamenga; influência da África e Ásia através de objectos de origem africana, chinesa, arte nanbam e arte indo-portuguesa; e arte estrangeira na qual encontramos pintura europeia do séc. XIV ao XIX, artes ornamentais, ourivesaria e têxteis. Da exposição temporária, Portugal e o Mundo, falaremos a seguir. Os objectos de África reduzem-se à cadeira do Rei do Congo. Há, na abordagem mobiliário do século XVI, uma nítida influência de formas ornamentais mais próximas do mediterrâneo. Todavia o museu não apresenta nenhuma leitura dessa especificidade, preferindo integrar a pintura, as artes decorativas na linha da “integração europeia”, na sua afiliação a uma história de arte como expoente duma civilização, como expressão duma nação. Nessa viagem esquece aquilo que agora procura mostrar com exposições temporárias. Interessante esquecimento” . 

Finalmente, vai para meia dúzia de anos, andava de volta da questão da educação nos museus, lá esbarrei com a Madalena Cabral. A senhora que me desafiou. Já não trabalhava lá mas a memória continuou pelas gerações seguintes. Deixou muitos filhos e filhas nos museus portugueses.

Ao escrever estas palavras é interessante como os fios da memória se vão tecendo, revivendo e reinterpretando os sentidos das coisas primeiras.

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