O Alvarinho é nosso ou da autenticidade de Património

De viagem para Coimbra para mais uma reunião de trabalho, com tempo para saborear a cidade, resolvo apanhar o comboio que vem da Figueira da Foz para Coimbra A. Porque da B já falei no posta anterior. Saio da estação e embrenho-me nas vielas da cidade velha ou Bairro de Santa Cruz. Paro na casa de pasto /taverna de António Pinto de Vasconcelos, para comer uma sandes de leitão da Bairrada antes de me aventurar a atravessar o arco da Almedina e trepar o quebra costas.  O empregado, brasileiro por sinal, serve-me uma generosa sandes, com molho picante. Forneceu-me ainda, extra pão, uma crosta estaladiça, que delicadamente recusei, a pensar que não faria nada bem ao colestrol.

Na TV dava conta duma manifestação, lá para as bandas de melgaço. Um punhado de lavradores, de capote e chapéu redondo, tal qual as personagens das “pupilas do sr. Reitor” do Júlio Dinis, naquele velhinho filme de Leitão de Barros de 1935. As personagens chamaram-me a atenção pelo seu ar castiço em 2015, simulando uma tradicionalidade. O meus espanto foi ainda maior quando entendi o motivo da manifestação.

Protestavam então os castiços lavradores contra a expansão da Região Demarcada do Vinho Alvarinho uma proposta da Comissão de Vinicultura do Vinho Verde. Ou seja Melgaço e Monção reivindicam a manutenção da denominação de origem do vinho. Segundo os manifestantes, alargar a Denominação de Origem vai baixar os preços da compra do uva, e lançar 700 famílias na pobreza.  É a única coisa que lá têm. já não há agricultura e já não há contrabando.Um negócio de 17 milhões de euros a ir por água abaixo. E canta-se:

O alvarinho tem dono / como manda a tradição, / é de Melgaço / e de Monção.

Confesso que tenho alguma dificuldade em perceber como é que este património, em nome da tradição deve ficar imóvel. É certo que o Alvarinho é o melhor dos vinhos verdes. É uma marca mais forte do que o viño ribeiro da Galiza (de onde de resto também há alvarinho) ou do vinho Loureiro, mas enfim apesar de tudo há que separar a questão das marcas da questão das castas.

Ora dizer que um planta é nossa, só pode ser cultivada aqui, porque aqui é que ela é boa não tem nada a ver com a questão da autenticidade do património. se assim fosse ainda estariamos na idade da pedra. Mas enfim. O problema é pois o negócio… Mas também aí sabemos que há os velhos do restelo. No século XIX os operários destruiam as máquinas que pensavam que lhes iam tirar o trabalho. Cem anos depois, os trabalhadores depositavam, nessas mesmas máquinas a esperança da libertação da escravidão do trabalho. Hoje as máquinas foram-se e foi-se o trabalho. Mas ainda temos o alvarinho.

Estranho mundo este

 

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