Onde está o nó da questão ecológica (I)?

Leonardo Boff

Estamos acostumados ao discurso ambientalista genralizado pela mídia e pela consciência coletiva. Mas importa reconhecer que restringir a ecologia ao ambientalismo é incidir em grave reducionismo. Não basta uma produção de baixo carbono mas mantendo a mesma atitude de exploração irresponsável dos bens e serviços da natureza. Seria como limar os dentes de um lobo com a ilusão de tirar a ferocidade dele. Sua ferocidade reside em sua natureza e não nos dentes. Algo semelhante ocorre com o nosso sistema industrialista, produtivista e consumista. É de sua natureza tratar a Terra como um balcão de mercadorias a serem colocadas no mercado. Temos que superar esta visão caso quisermos alcançar um outro paradigma de relação para com a Terra e assim sustar um processo que nos pode levar a um caminho sem retorno e mesmo a um abismo.

Estamos cansados de meio-ambiente. Queremos o ambiente inteiro, vale dizer, uma visão sistêmica…

Ver o post original 779 mais palavras

Anúncios

Onde está o nó da questão ecológica(II).

Leonardo Boff

No artigo anterior com o mesmo título abordamos o lado objetivo da questão ecológica, tentando superar o mero ambientalismo a partir de uma nova visão do planeta, da natureza e do ser humano, como a porção pensante da Terra.

Mas esta consideração é insuficiente se não for completada por uma visão subjetiva, aquela que afeta as estruturas mentais e os hábitos dos seres humanos. Não basta ver e pensar diferente. Temos também que agir diferente. Não  podemos mudar simplesmente o mundo. Mas sempre podemos começar a mudar este pedaço do mundo que somos cada um de nós. E se a maioria incorporar esse processo daremos o salto quântico necessário para um novo paradigma de habitar a única Casa Comum que temos.

Inspira-nos a Carta da Terra, de cuja redação tive a honra de participar sob a coordenação M. Gorbachev entre outros. Insatisfeitos com os resultados finais da Rio+20 um…

Ver o post original 727 mais palavras

O Império da Visão. Fotografia no Contexto Colonial português (1860-1960)

imperiodavisao

De Filipa Lowndes Vicente investigadora do ICS foi hoje lançado o livro O Império da Visão: a fotografia no contexto colonial.(1860-1960) com edição das Edições 70.

Da apresentação retiramos “Ao longo da segunda metade do século XIX, a fotografia surgiu como um instrumento central na definição de identidades nacionais, coloniais e individuais, e como nova forma de conhecimento e de comunicação. Entre os anos 1850 e os anos 1950, a fotografia foi mesmo o principal modo de tornar o mundo visível. Esta hegemonia da fotografia foi contemporânea da hegemonia do colonialismo da época, coincidência temporal que se reflectiu na estreita relação entre colonialismo e fotografia: nos modos como contribui para uma cultura colonial, por um lado, e, por outro, na forma como se tornou um dos objectos históricos daqueles espaços e lugares onde os vestígios materiais, visuais e escritos da experiência colonial portuguesa acabaram as suas viagens – os arquivos privados e públicos dos países que, no passado, foram metrópoles ou colónias.
Hoje, os estudos sobre imperialismo reconhecem como, a par da documentação escrita, as imagens são determinantes para se compreender e estudar os impérios. Nos diferentes cruzamentos entre cultura visual e império, a fotografia ocupou um lugar central: como instrumento inseparável dos vários saberes científicos que usavam as colónias como laboratório; ao serviço da propaganda política do poder colonial; ou nos modos como foi apropriada pelos sujeitos colonizados, enquanto forma de resistência ou mesmo no forjar de identidades protonacionalistas; nos seus usos pessoais e íntimos. As potencialidades de reprodução das tecnologias fotográficas multiplicaram os seus usos e circulação. Em exposições coloniais, folhetos e postais, a ilustrar jornais, livros médicos, militares ou antropológicos.
Com a participação de vários investigadores de diversas áreas e interesses, este livro constitui um contributo pioneiro e enriquecedor para o estudo da fotografia em contexto colonial.”

Com apresentação de Isabel Castro Henriques, estavam lá todos os africanistas da urbe. Bem falantes, o livro desta jovem investigadora parece enveredar por caminhos inovadores, recolhendo e trabalhando sobre arquivos fotográficos numa perspectiva crítica.

O uso da fotografia como documento da história tem vindo ser crescentemente usado como recurso de análise e posterior publicação. A autora, coordenadora duma vasta equipa parece pessoa preparada. Nascida em Lisboa em 1972, “ é desde 2009 Investigadora Auxiliar do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Doutorada pela Universidade de Londres em 2000 (Department of Historical and Cultural Studies, Goldsmiths College), pós-graduada em História da Arte contemporânea no Goldsmiths College (1995) e licenciada em História e História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1994). A sua tese de doutoramento deu origem ao livro Viagens e Exposições: D. Pedro V na Europa do Século XIX (Lisboa: Gótica, 2003) que obteve o “Prémio Victor de Sá de História Contemporânea” em 2004.

Após o doutoramento, com o apoio de uma bolsa da Fundação Oriente, começou a trabalhar sobre a Índia colonial nos séculos XIX e XX. Entre 2003 e 2009 foi bolseira de pós-doutoramento (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) no Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, no ano lectivo de 2008-2009, no Departamento de Arte e Arqueologia da School of Oriental and African Studies (SOAS) da Universidade de Londres. Entre 1994 e 2009 viveu e trabalhou em Inglaterra, EUA, e Itália.

Do trabalho de investigação realizado após o doutoramento resultaram vários artigos e um livro: Outros Orientalismos: a Índia entre Florença e Bombaim (1860-1900) (Lisboa: ICS, 2009). Iniciaram-se ainda dois projectos-livros: A Índia do Lado: histórias cruzadas entre o colonialismo britânico e português na Índia da segunda metade do século XIX e A Arte sem História: mulheres artistas (séculos XVI-XX).

Organizou e leccionou cursos sobre os seguintes temas: “De musas a artistas: as mulheres e a arte” (Museu de Serralves, Porto); “História das colecções, museus e exposições” (Mestrado em Património e Museologia da Universidade Católica de Lisboa); “Antropologia e cultura visual” (Mestrado em Patrimónios e Identidades do ISCTE, Universidade de Lisboa).

Através do seu principal projecto de investigação no ICS – Goa em Exposição: Exposições, Imagens e Identidades (1850-1950) – pretende analisar a produção de conhecimento em contexto colonial, a circulação de pessoas e de objectos num espaço globalizado sobretudo na segunda metade do século XIX, e as formas de construção do passado e do presente através de museus, arquivos, bibliotecas, revistas, fotografia, e da escrita histórica, arqueológica ou antropológica.

A sua abordagem é histórica mas os seus temas de investigação cruzam-se com a antropologia ou a cultura visual: a história da produção de conhecimento, sobretudo no século XIX; cultura visual e colonialismo; história das colecções, exposições e museus em contexto colonial; viagens de pessoas e de objectos; história da fotografia; culturas do nascimento; práticas educativas; estudos de género.” Retirado da pagina pessoal do ICS.

Pois tudo parece bem quando está bem. O meu incomodo é mais uma vez o lugar de locução. Falar do Império a partir do império que já não é. Não basta hoje falar de pós-colonial e olhar para os territórios como parcelas lusofona sem uma crítica dessa unidade. Na academia ainda se usa essa unidade de análise. Convém contudo não esquecer que, constituindo a fotografia uma ilustração da cartografia do espaço do outro, ele também nos fala do outro. Falar o outro é um local de locução. Um lugar que já não é pós-colonial.

O resto virá depois de ler o livro que não comprei.

Estamos atentas e participação cidadã

Nos últimos dias participei em dois eventos sobre participação e cidadania.

O primeiro, Portugal Participa, organizado pela InLoco e  CES em colaboração com a Câmara Municipal de Cascais e o Instituto de Inovação social. Ainda não tivemos tempo de coligir as notas dessa oficina neste diário, o que faremos em breve, pois suscitam-nos notas interesantes notas. Para quem tem  curiosidade pode ir ao portal que foi lançado nessa sessão aqui.

Hoje participamos numa outra iniciativa de apelo à participação cidadã. Esta sobre Uma nova narrativa para a Europa. Trata-se duma iniciativa da comissão europeia e Parlamento Europeus que em Portugal conta com o apoio do Centro de Informação Jacques Dellors e é animada pela associação Sete Pés.

Deixaremos para outra ocasião a questão dos princípios da nova narrativa proposta que propões discutir num evento a realizar no Porto a 23 de janeiro uma proposta sobre o ” NOVO RENASCIMENTO E NOVO COSMOPOLITISMO”

“A Europa precisa de uma mudança de paradigma para a sua sociedade – na realidade,
precisa de nada menos do que um “Novo Renascimento”, lê-se na Declaração do Comité
Cultural do Projeto Uma Nova Narrativa para a Europa. Ao evocar aquele período
europeu do séc. XV e XVI em que a sociedade, a arte e a ciência abalaram a ordem
estabelecida e criaram os fundamentos e a dinâmica para a atual era da Sociedade do
Conhecimento, os autores daquela Declaração reivindicam a necessidade de um novo
paradigma para a sociedade europeia do séc. XXI, assente num “Novo Renascimento”.
Precisa também de um novo cosmopolitismo para os seus cidadãos “que englobe
ambientes urbanos dinâmicos e criativos […]. As cidades europeias devem ser algo
mais do que centros urbanos. Devem procurar tornar-se capitais de cultura […].Porque
não começar a imaginar a Europa como uma enorme megalópode, interligada por
meios de transporte e de comunicação?”.
De que modo podemos reajustar as prioridades no quadro da entidade política que é a
Europa, à luz destes ideais que nos são propostos pelos autores daquela Declaração, um
“Novo Renascimento” e um “Novo Cosmopolitismo?

Neste evento em Lisboa trabalhamos sobre a metodologia do Europa Café.

A metodologia do Europa- Café é simples:

Como trabalho prévios preparam-se duas questões retiradas do texto “O corpo e a mente da Europa” um texto preparado por um conjunto de peritos por encomenda da Comissão e Parlamento. As questões, com enquadramento ou não são colocadas num cartão, e destinam-se a ser distribuídas pelos grupos de trabalho. No conjunto prepram-se duas a três questões para discutir.

Os grupos de trabalho, que deverão ter no máximo 25 a 30 participantes, reúnem-se numa sala em mesas de café, durante duas horas. O desafio a lançar para os participantes é de se dividirem em sub-grupos de 5 a 6 pessoas. Cada grupo debaterá uma das questões colocadas. durante cerca de 20 ‘.

No final do debate, os grupos misturam-se, ficando o coordenador do grupo na mesa, misturando-se os restantes participantes do grupo, por grupos com um questão idêntica. Nesse segundo momento, o coordenador apresentará os resultados obtidos e propõem que sejam discutidas as questões levantadas e sejam apresentadas ações concretas para os problemas. Durante 30’ o debate procurará criar um mind map do grupo.

Finalmente no terceiro momento, o grupo apresenta ao plenário as suas conclusões. O seu mind map. essas contribuições são os resultados dos trabalhos. ao coordenador caberá o papel de depurar as propostas semelhantes e das as inscrever na plataforma.

O web café tem como objetivo promover a participação cidadã e desenvolver conclusões práticas. Deverá ter-se em atenção que o ambiente de café deve ser descontraído, em volta da mesa, com disponibilidade de café ou chã. Deverá haver material para escrever e cartões de cores, Cada participante é incentivado a escrever e descrever o debate. As questões devem ser colocadas em texto.

em suma a metodologia desenvolve-se em três momentos:

  • debate (30′) Identificação – Resolução do problema
  • reformulação (30′) . O porta voz apresenta o problema e a sua solução. O grupo debate.
  • conclusões (30′) . o grupo escuta a voz de todos e up-load dos resultados (o compromisso)

No final os resultados são colocados on line em vários formatos. Filmes, fotos, textos.

O work shop – descrição

1. problema: pergunta

 

 

 

Debate com várias bibliotecárias e membros da universidade aberta:

A Europa desvendada, o desafio comum de  construir o futuro com ideias unificadores. Mensagens positivas. Procurar questões que nos unem. As pessoas devem escolher o futuro. Os políticos devem ser criativos. Estamos de fora da Política. Não sentimos que fazemos parte da Europa. Cabe-nos fazer alguma coisa pela europa. Fazer na nossa terra. O desafio é chegar aos vários públicos. O café deve ser adequado ao grupo de pessoas. As pessoas estão pouco habituadas a participar. As pessoas não estão habituadas a ir às bibliotecas.

Após esta discussão chega-se a uma fase prepositiva. que ações devem ser feitas.

respostasO grupo chegou a quatro propostas

  • chamar o público para o debate
  • ter uma visão positiva
  • procurar saber o que as pessoas pensam da europa

 

As propostas devem ser concretas. Devem proporcionar novas narrativas.

No segundo momento, o desafio de ler as propostas apresentadas a um grupo diferente. duas professoras de almada e Joaquim Jorge dos Museus.

Nova discussão: Procurar descobrir o que há de comum. A história do surf de Peniche como elemento que mostra o lugar. é necessário estar a atento ao lugar e ao que se passa à volta. Construir pontes. Convocar o passado a partir da leitura do presente. Construir o presente.

A mobilização das pessoas tem a ver com a atitude de quem faz. “Estarmos Atentas

No final devem ser salientadas as propostas concretas para ações. Essas são as formas de inscrever na plataforma.

A outra questão debatida pelos outros grupos foi “Que narrativas nos podem oferecer mutuamente a Razão e a Emoção de ser europeu ?

Os grupos debateram as questões dos valores base da Europa. A dignidade do ser humanos, os direitos humanos, a Democracia. As questões do individualismos que são exacerbadas pelo sistema emocional. A razão de ser europeu deverá articular-se com a comunidade e com as relevâncias culturais.